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Entregar o coração


Por: Fabiana Margonato
Data: 20/04/2026
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Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: fabiana_margonato

Esses dias, fui pega no flagra. Meu marido voltava para casa depois de deixar meu filho mais velho na escola e me viu fazendo uma coisa que chamou sua atenção.

A rua em que moro é cheia de casas antigas, muitas delas com vários cachorros no quintal. Em uma delas, me compadeci de um cachorro caramelo – o Tito - e comecei a conversar com ele todos os dias na volta das minhas caminhadas.  Aquele dia, passando de carro, meu marido me viu parada do lado de fora do portão fazendo isso. Bem na hora parou e perguntou, do meio da rua: “Tá fazendo o quê? Conversando com o cachorro?”

Levei um susto, tamanha a concentração. Me despedi do meu amigo, entrei no carro e comecei a contar a história. Tudo começou quando reparei que Tito fica preso em um canto do quintal, isolado dos outros bichos da casa. Um dia, perguntei a sua tutora, uma senhora de uns oitenta anos, por que isso acontecia. Ela me disse que ele brigava com os outros cachorros da casa, e esse era o jeito que encontrou para manter um pouco de paz. Tito ficava lá. Sempre triste. Uivava.

Um dia, estendi minha mão para fazer um pouco de carinho pelo meio da grade. E criamos esse ritual de troca. Toda manhã dou a ele por uns minutos um pouco do meu tempo e, junto, um pouco do meu coração. Vou falando que precisa se acalmar e que não precisa ser tão bravo assim. Quando saio, Tito fica mais tranquilo.

E comecei a pensar que isso se aplica, e muito, também às relações humanas.

O amor é algo que deve ser cultivado todos os dias. E, quando não o fazemos, surge uma falta de conexão que muitas vezes nos deprime. Reli por esses dias alguns trechos de “A coragem de ser imperfeito”, de Brené Brown. O livro fala sobre a importância de aceitarmos nossas vulnerabilidades, ao invés de tentar escondê-las, e que a coragem começa quando nos mostramos e deixamos ser vistos apesar das nossas imperfeições.

E para isso, precisamos a cada dia, entregar verdadeiramente o nosso coração. Essa entrega exige deixar de lado todas as máscaras que nem sequer percebemos estar utilizando e oferecer o que temos de mais sincero: quem realmente somos. Mesmo que nem sempre seja agradável.

E nessas voltas de pensamentos, chego de novo ao Tito. Por mais curtos que sejam nossos encontros interespécie, percebo que servem como micro treinos para o que devo fazer na vida real. Oferecer o coração, com toda a sinceridade, sem esperar nada em troca é a única coisa que pode nos dar a real sensação de que temos sangue correndo pelas veias, e que de fato estamos realmente vivos.

Tenho a impressão de que esse treino deu certo pra ele. Na semana passada, sua dona veio ao portão dizer que ele estava mais bonzinho e até ficando solto junto com os outros bichos da casa. Vi sua cara cheia de farelo de pão e o focinho sujo de alguma coisa gostosa que ganhou para comer. Estava com as orelhas em pé e o rabo abanando. Estava feliz.

Me perguntei se alguns minutos do meu coração por dia o ajudaram a ser um cão mais feliz. Tentei acreditar que sim, e que de fato vale a pena investir tempo e energia para entregar o coração por onde quer que eu passe.

 

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato


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