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Mesmo sem enxergar


Por: Fabiana Margonato
Data: 27/04/2026
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Tem uma história que gosto de contar. Aconteceu comigo quando eu tinha uns dez anos, mas nunca me esqueço pois foi uma das primeiras frustrações que tive na vida. Nessa época, comecei a jogar basquete na escola, e ainda não entendia muito bem as regras.

Mesmo assim, meu pai um dia me levou participar de um jogo. Chegando no ginásio, ele ficou ali, sentado na arquibancada, observando cada jogada. Eu - reserva oficial do time - no início do segundo tempo, fui convocada pela treinadora para entrar em quadra. Meu coração disparou. Oportunidade única de começar a fazer história no time.

Mas vou resumir o ocorrido: alguém arremessou - não vi direito quem. De primeira, consegui pegar o rebote. Estava nervosa. Instintivamente arremessei de novo para a cesta e acertei. Olho para o meu pai na arquibancada esperando que estivesse orgulhoso, mas tive uma ingrata surpresa.

Ele estava vermelho, com o rosto escondido entre mãos, querendo se enfiar não sei onde. Foi aí que percebi que meu primeiro acerto tinha sido uma cesta contra. E esse foi um dos meus primeiros erros que tive na vida querendo acertar.

         Conto essa história para os meninos sempre que quero lembrá-los que errar faz parte do caminho. E que os erros acontecem mesmo quando estamos super bem intencionados, como eu estava naquele jogo de basquete. Tento ensiná-los o que ainda preciso aprender: as frustrações de fato existem e, por mais inevitáveis que sejam, não podemos permitir que nos tirem do nosso caminho.

         Uma vez assisti a um filme apaixonante que muito me ensinou sobre como lidar com a dor, principalmente quando não conseguimos saber qual o melhor caminho a se seguir. Em “A arte de correr na chuva” Milo Ventimiglia interpreta Denny, um pai viúvo que ama pilotar carros de corrida. No entanto, por problemas familiares, decide deixar de lado por um tempo o sonho de ser piloto de fórmula 1. Trabalharia como mecânico na equipe para manter o sustento garantido da filha.

Ao perceber a decisão, Enzo, cachorro de Denny, e narrador da história, diz a si mesmo que o dono parar de correr seria o mesmo que ele mesmo parar de latir. Até o cachorro sabia que abandonar o viemos para ser seria um grande erro e que a longo prazo traria uma infelicidade sem fim. Diante das frustrações, somos tentados a isso o tempo todo. Felizmente, no filme, Denny ouviu a voz do coração mesmo quando ninguém achava possível que ele corresse atrás de seus sonhos.

Ele não deixou de acreditar. Continuou gestando seus sonhos em silêncio, como uma maneira temporária de não deixar de seguir o caminho para o qual foi feito. E esse exemplo é um dos que tento lembrar quando passo por meus momentos de dúvida.

Há algum tempo viajei sozinha de carro a uma cidade próxima. Faltavam uns 50 quilômetros para chegar em casa, quando começou um vento forte e logo uma chuva torrencial. Em poucos minutos eu já não enxergava quase nada na estrada.   Parar o carro poderia causar um acidente, então, mesmo sem enxergar, precisava continuar.

O que me restou foi acender o pisca-alerta e enxergar apenas o pouco que estava bem a minha frente. E foi o que fiz até a tempestade acalmar. Às vezes a resposta para as nossas dúvidas sobre o que fazer vem em momentos como o dessa chuva.

Imagens ilustrativas/geradas por IA

Nas adversidades, precisamos prestar atenção apenas ao que nos é de fato ofertado pela vida naquele exato momento. As soluções normalmente estão bem perto. Naquele momento, no carro, prestar atenção unicamente naquele momento foi o que me ajudou a chegar em casa inteira. Precisei dar o melhor de mim em um momento ruim, acreditando que, por mais que que não parecesse, a tempestade iria passar.

Quando me lembro daquela menina de dez anos, que conheceu na quadra a vergonha e a dor por decepcionar o pai no jogo de basquete, da mulher que sentiu medo no dia de chuva e da mãe que não dá conta de tudo, tento não me desesperar. Prefiro acreditar que não são as dificuldades que nos definem, mas a fé, a força e a resiliência que surgem de dentro de nós mesmos quando passamos por momentos ruins.

Basta prestar atenção no que vem do coração. Quando não escutamos esse chamado, inevitavelmente a vida perde o sentido e de fato perdemos também o que temos de mais vital e que nos move.

 

A autora: 

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: fabiana_margonato

 

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato


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