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A noiva sem vestido


Por: Fabiana Margonato
Data: 08/06/2026
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A mulher que ainda mora em mim

Era meu aniversário de casamento. E, nesse dia, presenciei uma cena rara.

Pouco antes, eu estava em casa, conversando sobre o que faríamos para comemorar. “As crianças ficam sozinhas, peço alguma coisa pra elas. Vou fazer uma reserva só pra nós. Às oito. Mesa pra dois”.

E saí para caminhar. Naquele dia, mudei o caminho. Uma quadra depois, levei um susto: do outro lado da rua, uma noiva. De carne e osso.

Ela estava na esquina. Véu e grinalda – mas sem vestido.

Roupas comuns. O celular preso à mão, como se segurasse o tempo. Falava com pressa. Atravessei a rua. Por um instante, ela saiu da ligação e me olhou. Talvez tenha estranhado uma mulher com roupa de caminhada se aproximando assim, tão perto. Perguntei:

- Vai se casar?

- Vou. Daqui a pouco.

Olhei de novo.

- Fiquei na dúvida... sem o vestido...

Ela disse algo que não guardei. Porque, naquele momento, eu já não estava mais ali. Voltei ao dia em que a noiva era eu. Ao corpo inquieto, à cabeça cheia, ao medo silencioso de não dar conta.

Lembro que por meses sonhava toda noite que o vestido não ficaria pronto ou que chegaria atrasada no meu próprio casamento. Mas depois eu entendi. O medo não era da festa – era do inimaginável da vida que viria depois dela.

Do que começa quando a festa termina.

Pensei em dizer isso. Mas não disse.

Há coisas que ninguém tem o direito de antecipar. Cada mulher precisa atravessar esse desconhecido por conta própria. Apenas falei:

- Hoje é meu aniversário de casamento.

Ela sorriu.

- Espero fazer muitos também.

Sorri de volta. Senti vontade de abraça-la, mas não o fiz. Apenas disse:

- Te desejo uma boa vida.

Segui meu caminho. E então entendi. Não era sobre ela.

Imagem meramente ilustrativa/IA

Era sobre reconhecer, nos olhos daquela noiva, a mulher que eu fui – e perceber que ela ainda está aqui. Ainda existe em mim essa mistura de expectativa e medo, essa sensação de não estar preparada para o que vem.

E, de algum jeito, isso não é um problema. É o próprio movimento da vida. E, de certo modo, o que a torna mais interessante. Continuei andando com o coração mais leve.

Naquele dia, sem planejar, recebi o melhor presente de aniversário: lembrar quem eu fui – e perceber que ainda sou.

 

SOBRE A AUTORA: 

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: @fabiana_margonato

 

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato


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