A noiva sem vestido

A mulher que ainda mora em mim
Era meu aniversário de casamento. E, nesse dia, presenciei uma cena rara.
Pouco antes, eu estava em casa, conversando sobre o que faríamos para comemorar. “As crianças ficam sozinhas, peço alguma coisa pra elas. Vou fazer uma reserva só pra nós. Às oito. Mesa pra dois”.
E saí para caminhar. Naquele dia, mudei o caminho. Uma quadra depois, levei um susto: do outro lado da rua, uma noiva. De carne e osso.
Ela estava na esquina. Véu e grinalda – mas sem vestido.
Roupas comuns. O celular preso à mão, como se segurasse o tempo. Falava com pressa. Atravessei a rua. Por um instante, ela saiu da ligação e me olhou. Talvez tenha estranhado uma mulher com roupa de caminhada se aproximando assim, tão perto. Perguntei:
- Vai se casar?
- Vou. Daqui a pouco.
Olhei de novo.
- Fiquei na dúvida... sem o vestido...
Ela disse algo que não guardei. Porque, naquele momento, eu já não estava mais ali. Voltei ao dia em que a noiva era eu. Ao corpo inquieto, à cabeça cheia, ao medo silencioso de não dar conta.
Lembro que por meses sonhava toda noite que o vestido não ficaria pronto ou que chegaria atrasada no meu próprio casamento. Mas depois eu entendi. O medo não era da festa – era do inimaginável da vida que viria depois dela.
Do que começa quando a festa termina.
Pensei em dizer isso. Mas não disse.
Há coisas que ninguém tem o direito de antecipar. Cada mulher precisa atravessar esse desconhecido por conta própria. Apenas falei:
- Hoje é meu aniversário de casamento.
Ela sorriu.
- Espero fazer muitos também.
Sorri de volta. Senti vontade de abraça-la, mas não o fiz. Apenas disse:
- Te desejo uma boa vida.
Segui meu caminho. E então entendi. Não era sobre ela.
Era sobre reconhecer, nos olhos daquela noiva, a mulher que eu fui – e perceber que ela ainda está aqui. Ainda existe em mim essa mistura de expectativa e medo, essa sensação de não estar preparada para o que vem.
E, de algum jeito, isso não é um problema. É o próprio movimento da vida. E, de certo modo, o que a torna mais interessante. Continuei andando com o coração mais leve.
Naquele dia, sem planejar, recebi o melhor presente de aniversário: lembrar quem eu fui – e perceber que ainda sou.
SOBRE A AUTORA:
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

