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Ainda escolho ficar


Por: Fabiana Margonato
Data: 06/07/2026
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Vai quebrar meu filho no meio! Juiz ladrão!!!”

         Olho para o lado. Vejo uma mãe enfurecida na arquibancada assistindo ao jogo de futebol.

         Naquele dia, meu filho errou o horário da partida. Chegamos bem adiantados. Ainda haveria dois jogos antes do dele. Mesmo assim, resolvi esperar.

         De todo lado, mães gritando a cada lance, a cada falta e a cada quase gol. Um golpe de adrenalina total.

         Mesmo vivendo nessa realidade há alguns anos, ainda não consigo achar tudo isso normal. De vez em quando, o que mais quero é sair correndo. E, naquele dia, a vontade era ainda maior.

         Em momentos como esse, às vezes volto ao dia em que, na sala de ultrassom, descobri, pela primeira vez, que seria mãe de um menino.

         Por um instante, meu mundo parou. Dentro de mim, aquela grande surpresa. Um mundo ao qual sequer eu imaginava ser apresentada.

         Eu - há tão pouco tempo uma menina delicada – colocaria um mini homem nesse mundo. Como sempre, a vida me dando o inesperado como seu maior presente.

         Logo após sair da clínica, a caminho do trabalho, vi uma loja de enxovais em uma avenida e resolvi parar.

         Ainda em choque, disse à vendedora que procurava um presente para uma amiga que teria um menino. A barriga era pequena, quem não olhasse bem, não perceberia.

         Ela me mostrou várias coisas, mas, assim que vi, escolhi o seu primeiro presente: um edredom azul com desenhos de carrinhos.

         E foi então que comecei a sentir dentro de mim aquele universo masculino com toda a sua intensidade.

         Hoje, na beira do campo de futebol, ou na madrugada, enquanto espero acordada a ligação para buscar, gosto de lembrar do susto e da doce surpresa que marcou aquele dia – o dia em que pensei que o edredom azul de carrinhos abraçaria meu menino, resolveria todos os seus problemas e acalmaria os meus maiores medos.

         E essa lembrança me traz uma espécie de alívio. Ela me lembra que tudo passa. Passa o dia da grande descoberta. Passa a aflição de cada jogo em que fico à beira do campo torcendo pra que a partida acabe logo. Passa a angústia de esperar sua volta para casa.

         E mesmo que, às vezes, esse mundo azul me assuste, me paralise ou me faça querer correr, eu ainda escolho ficar.

         Escolho ficar porque, no fim, viver nesse mundo é a única certeza que tenho sobre o que nessa vida preciso ser.

 

SOBRE A AUTORA: 

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: @fabiana_margonato

 

 

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato


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