A culpa é minha?
Cheguei para buscar meu cachorro e ele estava lá: em um cercadinho, isolado dos outros cães. A veterinária me disse, irritada, que toda vez é a mesma coisa.
Godofredo late sem parar e não aceita a aplicação da vacina. Não tem focinheira que dê conta, precisa da ajudante e do pessoal do banho e tosa para segurar a fera.
Fiquei com dó quando o vi isolado, mas nem deu tempo de perguntar. Ouvi de cara: “Você mima muito esse cachorro!”. Não acreditei. E agora a culpa era minha. Godofredo é alérgico, precisa tomar uma injeção a cada dois meses e sempre “dá trabalho” porque eu não o “eduquei”.
Educar cachorro? Eu nem sabia que existia isso. Para mim, são quase como elementos decorativos da casa. Entro e saio, e eles estão ali — os primeiros que vêm me dar beijo quando chego do trabalho.
Nunca imaginei passar por isso: o Godô levando advertência na clínica.
Indignada, respondi à veterinária: “Nada de educar! Me recuso!!”. Já basta a escola, o trabalho, as responsabilidades de adulto e todas as vezes que a vida já me coloca nos eixos. Vou deixá-lo fazer o que quiser!
Olho para ele, quietinho no canto da sala, e só quero pegá-lo no colo.
Talvez o problema seja esse: Godofredo me ama sem tentar me corrigir.
E isso, no fundo, só me lembra o quanto as cobranças e correções de todo dia me deixam cansada.
Saí do consultório fingindo que o sermão não era comigo.
Godofredo vai continuar sendo mimado.
E fazendo o que quiser.
Sobre a autora:
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

