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O medo que eu nunca tive coragem de contar


Por: Fabiana Margonato
Data: 25/05/2026
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Era terça à tarde. E mais uma vez eu evitava olhar direto para o elevador. Toda semana era assim. Meu destino, o oitavo andar. Era sempre a mesma coisa. O porteiro me olhava e sorria de um modo estranho. Eu não conseguia entender o que ele pensava.

Provavelmente era sobre mim. Uma mulher feita, que toda semana, escondia um fato bizarro: seu medo imenso de subir de elevador. A mulher e seu medo congelante.

Já fazia anos que eu ia ao prédio toda terça. Mesmo sem que eu quisesse, aquele homem, o porteiro, sabia sobre mim o que muitas pessoas que conheço sequer imaginavam: não subo de elevador sozinha.

Quem me conhece sabe. Normalmente não ligo para julgamentos. Mas, nesse caso, simplesmente eu ligava. Mostrar essa minha fraqueza realmente me doía demais.  Por isso, sempre ao entrar no prédio, eu fazia de tudo para não ter que cumprimentá-lo. Depois, o ritual de sempre: ficava na porta do elevador, esperando do lado de fora.

Meramente ilustrativa/IA

Esperava até que alguém chegasse – por pouco ou muito tempo - e “pegava uma carona” para não subir sozinha. O medo, então, se tornava suportável. Às vezes alguém falava: “não tem nada não”, “pra que isso, o elevador é o meio de transporte mais seguro do mundo, você não sabe?”.

Mas o porteiro nunca me disse nada. Apenas permanecia ali, observando em silêncio o que eu tentava esconder. Às vezes, ele chegava até a comentar alguma coisa com o zelador do prédio e os dois sorriam enquanto conversavam.

Eu chegava a pensar comigo mesma: “como ele pode rir diante do meu medo?”. Pra muita gente era coisa boba, mas só quem tem algum medo sabe como é importante. Soava às vezes como ofensivo para mim. Motivo pelo qual eu evitava qualquer contato.

Cheguei a comentar com uma amiga do prédio sobre a situação. Eu o apelidei de “o mexeriqueiro”. Já era difícil lidar com o medo e com a vergonha. E ele ria toda semana da mulher feita, independente, que trava diante do elevador.

Tive coragem de várias coisas na vida, entre elas ser mãe de três, iniciar um novo curso e mudar de profissão aos quarenta. Mas travava ali. Em uma coisa que qualquer pessoa consegue sem nem pensar muito. Até meus filhos falam que não tem sentido travar diante de um elevador.

Outro dia, era dezembro e o prédio estava praticamente vazio. Ninguém chegava pra me acompanhar. Senti uma presença silenciosa se aproximar de mansinho. E era ele. Respiro fundo e chego a suspirar de exasperação. Ele então me pergunta: “quer que eu vá com você hoje? Não posso deixar a portaria, mas como está tranquilo, te levo rapidinho e volto”.

Quase derreti de vergonha. Foram anos julgando. E, bem no fundo, nesse dia percebi que todos os julgamentos vinham do medo que eu tinha de ser julgada. Ele estava apenas tentando me ajudar. Sem que eu sequer tivesse pedido.

Nunca havíamos nos falado e eu imaginava apenas coisas ruins a seu respeito. Criei um monstro dentro de mim. Senti meu rosto corar de vergonha. E eu nem soube como responder. Não precisei. Ele tomou a frente, entrou no elevador e apertou a tecla do oitavo andar, esperando que eu também entrasse.

E subimos sem nenhuma palavra. Sem julgamento, sem crítica e sem ele me explicar que o elevador é seguro e não preciso ter medo. Apenas estendeu a mão em silêncio.

Surpreendentemente, recebi, de onde menos esperava, gentileza gratuita de alguém que teve chance, mas decidiu não tocar na minha vulnerabilidade. Ele não disse “sei que você tem medo”. Cena rara de se ver.

Inclusive, atitudes como essa, de bondade genuína, são as que mais esperamos durante uma vida toda de quem às vezes é próximo. E como são raras, é comum desistirmos de receber.  Mas elas acontecem onde menos esperamos.

Depois desse dia, não consegui (ainda – espero um dia conseguir) superar meu medo de elevador. Mas voltei a acreditar que, mesmo quando não consigo sozinha, vou receber a ajuda da qual preciso.

E, mais ainda, aprendi que não preciso ter vergonha das minhas fraquezas. Elas são parte de mim e, antes de mais nada, sou eu a primeira pessoa que precisa aceitá-las e acolhê-las. Talvez a coragem comece assim: quando a gente aprende a se acolher antes de se corrigir.

A autora:

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: @fabiana_margonato

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato


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