Um minuto antes do sinal

Semana passada aconteceu uma coisa que mexeu comigo. Meu filho ia fazer uma prova à tarde, na quinta, logo depois do almoço.
Nesse dia, fico imersa no meu corre-corre. Tenho apenas uma hora de almoço e conto com a ajuda de uma amiga que o leva para o Inglês.
Era dia de prova oral.
Mas ele não estava bem. Vomitou na porta da sala assim que a buzina da minha amiga soou no portão.
Falei pra ela que poderia ir sem ele. “Vai fazer prova de segunda chamada e tudo bem”.
Assim que a carona partiu e fechei a porta, ele se desesperou. Disse que não poderia perder “de jeito nenhum” aquela prova. O medo de encarar a segunda chamada gritou forte.
Tentei acalmá-lo, mas não teve jeito. Nem percebi direito e quando vi estava eu de novo lá, esbarrando em meu ponto fraco de mãe – minha dificuldade em dizer “não”. Dei a ele um remédio, coloquei um pouco de comida em um pote de sorvete e peguei um garfo. E entramos no carro rumo à escola de Inglês.
Ele chegaria um pouco atrasado, mas daria tempo. Não vomitou no caminho. Minha amiga já estava esperando no estacionamento da escola para levá-lo até a professora e explicar o ocorrido. Ele desceu do carro e se foi.
E comecei meu caminho de volta ao trabalho. Achei que não chegaria a tempo. Tinha ainda que almoçar. Com o pote de sorvete no colo, engolia uma garfada a cada semáforo. Tinha doze minutos para fazer um trajeto que normalmente faria em vinte e cinco.
Tentando me atrasar menos, resolvi mudar o trajeto. Optei por um atalho que nunca tinha tentado. Nem pensei em correr. Só respirei fundo e fiz a única coisa que poderia – continuar dirigindo.
Não sei o que aconteceu. Não peguei congestionamento e as ruas estavam pouco movimentadas. Ainda assim, precisei parar em alguns semáforos, o que me possibilitou o almoço.
Fiquei de olho no celular, pensando em avisar sobre meu atraso.
Mas não foi preciso. De uma forma que eu nem imaginava, um minuto antes do sinal da entrada dos alunos bater, eu estava parada, no portão em frente à escola em que trabalho.
Não consegui entender. Não corri. Não buzinei. Não cortei nenhum sinal.
À noite, pensando sobre isso, percebi.
Tem coisas que não são pra serem entendidas.
Só pra serem vividas.
Sobre a autora:
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. - Instagram: @fabiana_margonato

