Gorduras do bem x colesterol alto: entenda a diferença
Imagem ilustrativa/IA
O mês de agosto é marcado por celebrar a Prevenção e Controle do Colesterol, e leva o holofote para o tema de grande importância durante todo o período.
Dados recentes mostram que cerca de 32% a 40% da população adulta no Brasil apresenta níveis elevados de colesterol. A condição é um dos principais fatores de risco cardiovascular do país. Entender a diferença entre "gorduras do bem" e o colesterol que de fato preocupa é fundamental para quem quer proteger o coração ao longo do ano todo.
Nem toda gordura é vilã
Um dos maiores equívocos quando o assunto é colesterol, segundo Luana Melillo, nutricionista do Instituto Nutrindo Ideais (@nutrindoideais), especialista em nutrição funcional e fitoterapia clínica, é demonizar alimentos que na verdade contribuem para um perfil lipídico saudável. É o caso do abacate, do azeite de oliva, das castanhas, das sementes e dos peixes ricos em ômega-3: apesar de conterem gordura, são fontes predominantemente de gorduras insaturadas, que podem favorecer a saúde cardiovascular.
O problema real está em outro lugar. As gorduras trans presentes em ultraprocessados aumentam o LDL e reduzem o HDL, uma combinação particularmente desfavorável. Já as gorduras saturadas naturais, presentes em ovos e carnes, podem elevar o LDL quando consumidas em excesso, mas têm um impacto diferente das trans industriais. "Mais importante do que demonizar um alimento isolado é avaliar o padrão alimentar como um todo e priorizar alimentos in natura", explica.
Como melhorar o perfil lipídico sem remédio
Existe, sim, uma estratégia alimentar com respaldo científico para reduzir o LDL e aumentar o HDL sem o uso de medicamentos, defende Luana. O caminho passa por aumentar o consumo de fibras solúveis, como as presentes na aveia, na cevada, no feijão e nas frutas, além de vegetais, leguminosas, azeite, castanhas e peixes, enquanto se reduz o consumo de ultraprocessados, gorduras trans e o excesso de gorduras saturadas. Atividade física e perda de peso, quando necessárias, completam essa estratégia.
Na prática, um cardápio semanal para quem tem colesterol alto pode seguir uma lógica simples: metade do prato com vegetais, um quarto com proteína e um quarto com carboidrato rico em fibras, incluindo diariamente frutas, feijão ou outras leguminosas e fontes de gorduras insaturadas. A recomendação é alternar peixes, frango, ovos e carnes magras, reduzindo embutidos, frituras, biscoitos e outros ultraprocessados.
Colesterol total nem sempre conta a história toda
Olhar apenas para o colesterol total pode ser enganoso. É o que explica Yasmin Bittencourt (@dra.yasminbittencourt), médica integrativa atuante em Endocrinologia metabólica e afiliada do Instituto Nutrindo Ideais (@nutrindoideais)/Macaé: esse número é apenas a soma das diferentes frações de colesterol no sangue e, isoladamente, não é suficiente para avaliar o risco cardiovascular. Duas pessoas podem ter o mesmo colesterol total e, ainda assim, perfis metabólicos e riscos completamente diferentes.
O LDL, conhecido popularmente como "colesterol ruim", é a lipoproteína responsável por transportar colesterol do fígado para os tecidos e exerce funções essenciais no organismo, como a produção de hormônios e de vitamina D e a manutenção das membranas celulares. O problema surge quando há um número elevado de partículas de LDL circulando, o que aumenta o risco de formação de placas nas artérias, especialmente na presença de inflamação crônica, hipertensão, diabetes, resistência à insulina e tabagismo.
Já o HDL participa do transporte reverso do colesterol, levando o excesso de volta ao fígado para ser eliminado. De acordo com a endocrinologista, embora níveis mais altos de HDL costumam estar associados a menor risco cardiovascular, sua funcionalidade pode ser tão importante quanto a quantidade. Os triglicerídeos, por sua vez, são a principal forma de armazenamento de gordura do corpo e refletem a saúde metabólica de forma importante: quando elevados, podem indicar resistência à insulina, excesso de gordura visceral ou uma alimentação rica em açúcares e carboidratos refinados.
Quando o colesterol alto é genético
Nem sempre a mudança na alimentação é suficiente para controlar o colesterol. Existe uma condição chamada hipercolesterolemia familiar, doença genética em que o organismo tem dificuldade de remover o LDL da circulação. Nesses casos, os níveis permanecem elevados desde a infância ou o início da vida adulta, mesmo com hábitos saudáveis.
Alguns sinais chamam atenção para essa possibilidade, como LDL persistentemente muito elevado, histórico familiar de colesterol alto e casos de infarto ou AVC em idade precoce entre parentes próximos. Nesses cenários, mudanças no estilo de vida continuam importantes para reduzir o risco cardiovascular, mas geralmente não bastam para normalizar os níveis de colesterol, sendo necessário acompanhamento médico e, muitas vezes, uso de medicação.
Além dos valores do laboratório
Para Yasmin, os valores de referência do laboratório servem como guia, mas não devem ser interpretados isoladamente. Uma avaliação mais completa considera histórico familiar, idade, presença de diabetes, hipertensão, excesso de peso e hábitos de vida. Na abordagem funcional, triglicerídeos elevados associados a HDL baixo, por exemplo, costumam sugerir resistência à insulina, mesmo quando o colesterol total não parece preocupante.
Marcadores mais modernos também têm ganhado espaço na avaliação de risco cardiovascular. A ApoB mede a quantidade de partículas potencialmente aterogênicas no sangue e, em muitos casos, prediz melhor o risco cardiovascular do que o LDL isoladamente. Já o LDL-P mede diretamente o número de partículas de LDL.
“Uma pessoa pode ter um LDL aparentemente normal, mas um número elevado de partículas, o que já aumenta o risco. Há ainda a lipoproteína(a), ou Lp(a), um fator de risco predominantemente genético que pode elevar significativamente a chance de doença cardiovascular mesmo em quem tem o colesterol aparentemente controlado”, comenta a endocrinologista.
Segundo ela, esses exames mais específicos não precisam ser solicitados para todo mundo, mas são úteis em casos de histórico familiar relevante, risco cardiovascular aumentado ou resultados inconclusivos no perfil lipídico convencional, permitindo uma prevenção e um tratamento mais individualizados.
REFERÊNCIAS:
Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) – Diretriz Brasileira de Dislipidemias.
European Society of Cardiology (ESC) – Guidelines on cardiovascular disease prevention.
Mach F, Baigent C, Catapano AL, et al. 2019 ESC/EAS Guidelines for the Management of Dyslipidaemias: Lipid Modification to Reduce Cardiovascular Risk. European Heart Journal. 2020;41(1):111–188.
Grundy SM, et al. 2022 ACC Expert Consensus Decision Pathway on the Role of Nonstatin Therapies for LDL-Cholesterol Lowering. Journal of the American College of Cardiology. 2022.
FONTES:
Luana Melillo, nutricionista do Instituto Nutrindo Ideais (@nutrindoideais), especialista em nutrição funcional e fitoterapia clínica.
Formada pela Uni-BH, com especializações em Nutrição Esportiva Funcional e Fitoterapia Clínica. Atua no Instituto Nutrindo Ideais, em Belo Horizonte, com abordagem integrativa e foco em performance esportiva, hipertrofia e longevidade.
Yasmin Bittencourt (@dra.yasminbittencourt), médica integrativa atuante em Endocrinologia metabólica e afiliada do Instituto Nutrindo Ideais (@nutrindoideais)/Macaé.
Médica, pós graduada em Endocrinologia e metabologia, além da medicina funcional integrativa. CRM 120640-0.

