O cinto

- Ué, eu não sabia que mulher também usava cinto!
- Usa sim! De vez em quando eu coloco. Você nunca reparou?
Meu filho saiu do quarto sem nem me responder.
Eu estava atrasada. Ele tinha entrado apenas para me chamar. Depois da minha resposta, fez uma cara estranha tentando compreender aquela novidade.
A partir de agora, mulheres usam cinto. Sua nova descoberta feita a partir de mim.
Já no carro, a caminho do almoço ao qual iríamos, voltei à cena do quarto. Meu coração começava a disparar.
Foi como um estalo nos meus pensamentos. Até aquele instante, eu sempre havia acreditado que os meninos observavam, antes de tudo, o pai.
Uma inquietação ganhou força dentro de mim.
Nunca tinha pensado nisso: sendo mãe de meninos e a única mulher da casa, me torno, para eles, seu primeiro e mais marcante modelo feminino.
Depois daquele dia, percebi que o cinto era apenas uma amostra ínfima de tudo o que observam.
Lembrei de um Natal, há alguns anos, quando me deram uma chuteira de presente para jogarmos futebol juntos. E das muitas vezes que brincávamos de “esmagar”, onde o mais fraco só era libertado depois de pedir arrego.
Talvez, sem que eu percebesse, já estudavam em mim, desde aquela época, o que esperam encontrar, um dia, em uma outra mulher.
Tempos depois daquela pergunta do cinto, externei minha curiosidade. Pedi que escrevessem quais características acreditavam estar presentes em uma boa mulher.
A resposta surpreendeu muito mais do que eu imaginava. Entre as primeiras palavras, estavam: “gentil”, “respeitosa” e “divertida”.
Na simplicidade delas, havia muito do que, silenciosamente, aprenderam sobre o feminino. Meus observadores mais atentos disseram palavras que eu jamais esperaria ouvir.
E foi o olhar deles que mudou o meu.
Suas respostas fortaleceram em mim a crença de que uma boa mulher não é a que busca ser perfeita, mas a que não deixa de ser humana. Aquela que sente, ri e chora sem tentar esconder quem é.
E, talvez, para ser essa mulher, eu não precise de tantas coisas - apenas a coragem de assumir minhas virtudes e imperfeições, procurando viver da forma mais inteira possível.
Sobre a autora:
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

