Um café comigo mesma

Há alguns meses, contei um segredo para minha mãe. Disse a ela que quase toda semana saio para tomar um café comigo mesma.
Demorei anos para deixar que ela soubesse.
Talvez porque nem eu mesma entendesse completamente o significado daquele gesto. Mas, a partir do momento em que entendi, fui capaz de contar.
Sentar à tarde, sozinha, no meio da semana, em uma padaria — já vou dizer, sem rodeios: em uma loja de conveniência — para tomar o meu expresso de toda semana é uma forma de escutar alguém que, para mim, muito importa.
Aquela que, às vezes, fica escondida, apagando fogos e incêndios, muitas vezes sem a chance de dizer o que quer.
Aquela que, tantas outras vezes, sequer presta atenção naquilo que mais deseja.
É nesses pequenos momentos que respiro.
E tenho conversas e mais conversas com essa mulher que mora bem aqui dentro.
E sinto que ela ainda vive.
Vive tão urgentemente que me conta histórias e mais histórias, que se vestem de crônicas.
Crônicas que nada mais são do que pensamentos e sentimentos diante de uma vida comum, mas cheia de detalhes extraordinários.
Talvez seja por isso que escreva.
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

