Coceira

- Não tem nada aqui!
Ela mexia no meu cabelo devagar, enquanto eu prendia a respiração.
- Olha direito! Está coçando muito. Não aguento mais!!
- Mas não tem! Eu já olhei tudo. Não tem mais o que procurar.
Eu sentia calafrios. Fazia dois dias que meu couro cabeludo não me deixava em paz.
Tudo começou quando desci do ônibus, indo para a faculdade. Naquele horário, estava cheio de crianças voltando da escola. Olhei duas vezes para ter certeza do que via. Os piolhos caminhavam bem à vontade na cabeça de algumas delas.
Na mesma hora, comecei a coçar.
Voltei instantaneamente aos meus catorze anos, à última vez que tinha pego piolhos.
Sentia como se eles corressem pelo meu couro cabeludo. A coceira parecia descer pelo pescoço e se espalhar pelo corpo inteiro.
Já fazia dois dias da cena no ônibus. Eu fazia estágio em uma farmácia. Desde aquele dia, a farmacêutica olhava a cada pouco, vasculhando a minha cabeça. Minha mãe, em casa, também. E ninguém encontrava nada.
A coceira só passou mesmo depois de uma semana lavando a cabeça com xampu anti-piolho.
Acabei o estágio e achei que estava livre. Mas, na farmácia em que trabalhava, toda vez que eu dispensava uma loção anti-piolho, aquela sensação voltava. Meu marido, e depois, meus filhos, procuravam e nada encontravam.
Com o tempo, fui conseguindo me controlar. Mas quando vejo minhas crianças ou até mesmo meus alunos brincando muito próximos, automaticamente percebo minhas unhas no meu couro cabeludo. Felizmente, não preciso mais de remédio. Só treino respirar.
Apenas respiro. E volto ao momento presente.
Porque o piolho, quase sempre, existe mais dentro de mim do que fora. E a coceira é apenas um monstro que eu mesma criei a partir de uma simples possibilidade.
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

