Recalque

Eu não gostava de mentir. Muito menos de fingir. Mas não me restava outra saída.
O encontro já estava marcado e eu precisava sair.
- Cadê as chaves do carro?
Não estavam no lugar.
Um alívio me atravessou. Um jeito de não ir.
- Encontrei!
Meu filho me entregou, feliz.
No caminho, eu brigava com meus pensamentos. Não poderia deixar escapar o que estava sentindo. Mas nunca fui boa nisso.
Errei o caminho. Tinha mais um tempo pra me controlar. Tem gente que diz que sinto demais.
Não era nada.
Éramos em três amigas. Inseparáveis. Naquele final de semana, duas delas foram ao cinema e depois saíram para jantar. Nada de mais. Acho que esqueceram de me chamar. Vi nas redes sociais.
Mas era só coisa da minha cabeça. Imagina. Delicadeza e educação às vezes são coisas de mimimi.
Estacionei o carro. Cheguei. Conversas pra cá, risadas pra lá...
- Nossa, trânsito agitado hoje, não?
- É. Você viu o que aconteceu com a Maria?
E a conversa continuou.
Nem lembraram que saíram sem me chamar. Coisas da vida.
Respirei fundo e a raiva passou.
Comecei a me sentir melhor no exato momento em que percebi que talvez a errada fosse eu.
Por ter esperado uma reciprocidade que elas, possivelmente, não podiam - ou até mesmo não faziam questão de me dar.
Então deixei pra lá.
Bem nesse momento, entendi. O que não for recíproco não vale a pena carregar.
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

