O que eu não disse

Meu celular tocou.
Eu estava em sala de aula, aplicando uma prova para o sexto ano.
Era meu filho mais velho. Não pude deixar de atender.
Do outro lado da linha, uma voz paralisante:
- Mãe, procurei meus irmãos na saída da escola, mas eles não estavam. Disseram que já tinham ido. Cheguei em casa e não tem ninguém aqui.
Era Feira Cultural na escola deles. Meus filhos mais novos, naquela época, ainda não tinham celular. Eu trabalhava em uma cidade vizinha. Não podia buscá-los. Toda sexta, voltavam os três, juntos, caminhando para casa.
Mas naquela hora, meu coração disparou. Pedi que outra professora cuidasse da turma e simplesmente saí correndo. Não fazia ideia de onde eles estavam.
Já na rua, liguei para a escola. O caçula tinha oito anos de idade e nenhuma autorização para sair sem adulto. A secretária tentou me tranquilizar e disse que retornaria assim que o encontrassem.
Por um momento, o tempo parou. Entrei no carro e segui pela estrada. Pouco depois, o celular tocou. Tinham procurado por toda parte. Meus filhos realmente não estavam na escola.

Fiquei sem saber para onde ir.
Já na cidade, recebi uma mensagem. Era a mãe de um amigo avisando que os meninos da sala foram todos juntos na casa de um deles para jogar videogame e já aproveitaram pra almoçar.
A irmã mais velha de um deles foi buscar o menino e acabou levando mais alguns moleques juntos. No corre-corre da feira, o porteiro da escola não percebeu.
Estava tudo certo. Todos felizes e contentes por lá.
Voltei a respirar.
Só então uma dor percorreu as minhas pernas e depois o corpo inteiro. Percebi que minha roupa estava encharcada de suor e o banco do carro também.
Cheguei de volta ao meu corpo do lugar para onde tinha ido.
Fui direto para casa.
Vinte minutos depois, a mesma mãe que me enviou a mensagem chegou de carro com os meus filhos. Quando me viram no portão, não quiseram descer.
- Estão morrendo de medo do que a mãe vai falar, ela disse.
Respondi que podiam sair do carro. Eu não faria nada. O medo da perda tinha levado embora o meu fôlego e todas as minhas palavras. Não consegui dizer absolutamente nada. E foi melhor do que qualquer coisa que eu pudesse ter dito.
Esse silêncio pairou por mais alguns dias. Ouso dizer que talvez alguns anos. Foi nesse momento que meus filhos começaram a perceber que, por trás da mulher que sempre resolve tudo, existe alguém que também sente, que sofre e que dói a cada grande susto.
Alguém que, de vez em quando, se depara com a verdade mais difícil da maternidade: não é possível controlar tudo. E que os filhos, na realidade da vida, nunca foram e nem nunca serão seus.
Sobre a autora:
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

