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O que não posso ver


Por: Fabiana Margonato
Data: 15/06/2026
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Eu não consegui enxergar. Via apenas um borrão.

        Estávamos na rua. Eu e meu filho: “Mãe, dá uma olhada aqui, tem alguma coisa no meu olho”. Cheguei perto e não vi nada. Só depois de dar um passo para trás.

        Demorei a entender. Fiz de conta que não percebi. Mas a cena se repetiu à noite, quando olhei no espelho para arrumar a sobrancelha. Então eu entendi: dessa vez era comigo.

        Lembrei da minha avó com seus óculos de costura. Eu achava engraçado. Na infância, achava que aquilo jamais acabaria. Hoje, o que sinto é saudade.

E quem precisa dos óculos agora sou eu.

        Diante do borrão, me vejo de volta à cozinha dos meus avós. O cheiro do café. A pipoca de quase todo dia.

Ilustrativa/gerada por IA

        Algo mudou fora - e mudou dentro também.

        A menina que enxergava perto, mas não via adiante, agora olha para os seus.

        De perto, já não vejo como antes.

        Mas talvez nunca tenha visto tanto.

Fecho os olhos – e, curiosamente, é quando tudo fica mais nítido.

O passo para trás, às vezes, é só a vida ajustando o foco.

 

SOBRE A AUTORA:

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: @fabiana_margonato

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato


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