O que não posso ver

Eu não consegui enxergar. Via apenas um borrão.
Estávamos na rua. Eu e meu filho: “Mãe, dá uma olhada aqui, tem alguma coisa no meu olho”. Cheguei perto e não vi nada. Só depois de dar um passo para trás.
Demorei a entender. Fiz de conta que não percebi. Mas a cena se repetiu à noite, quando olhei no espelho para arrumar a sobrancelha. Então eu entendi: dessa vez era comigo.
Lembrei da minha avó com seus óculos de costura. Eu achava engraçado. Na infância, achava que aquilo jamais acabaria. Hoje, o que sinto é saudade.
E quem precisa dos óculos agora sou eu.
Diante do borrão, me vejo de volta à cozinha dos meus avós. O cheiro do café. A pipoca de quase todo dia.
Algo mudou fora - e mudou dentro também.
A menina que enxergava perto, mas não via adiante, agora olha para os seus.
De perto, já não vejo como antes.
Mas talvez nunca tenha visto tanto.
Fecho os olhos – e, curiosamente, é quando tudo fica mais nítido.
O passo para trás, às vezes, é só a vida ajustando o foco.
SOBRE A AUTORA:
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

