Quando a morte nos ensina a viver
Entre lápides e silêncios, a imagem traduz a reflexão proposta pela crônica: encarar a finitude pode ser um caminho para redescobrir o valor do agora e a urgência de viver com sentido – Imagem meramente ilustrativa
Esses dias deixei alguns alunos horrorizados. Assim ficaram, pois começamos a falar - de verdade - sobre a vida.
Estávamos lendo o “Soneto da fidelidade”, de Vinícius de Moraes, quando surgiu a pergunta relacionada ao poema: “por que a morte nos angustia tanto?”. O silêncio que veio depois foi mais honesto do que qualquer resposta.
Comecei a contar, então, que há pouco tempo, fui a um velório de uma conhecida de 101 anos e que na ocasião, não senti tristeza, mas um certo alívio. Como se, naquele caso, a morte não fosse perda, mas sim descanso.
Uma aluna me chamou de fria. Perguntei a ela: “o que você esperaria para alguém que já viveu tanto?”. Ninguém soube responder.
E foi ali que refletimos sobre o fato de que o que nos angustia não é a morte em si. Ela nos assusta pois nos lembra da única certeza que temos: nossa finitude.
Gosto de caminhar por cemitérios. Não pela morte, mas pelas histórias que já foram vividas. Observo cada lápide e fico a pensar naquela história, como foi ou como poderia ter sido. Fazer isso me dá forças para tentar construir da melhor forma que posso a minha própria história.
Há algum tempo, era dia de Finados. Meu marido e eu caminhávamos entre as lápides e eu, por dentro, desanimada por algumas sobrecargas da vida, tentava reencontrar a alegria de viver.
Meu marido, olhando ao redor, disse com uma simplicidade quase dura: “Acho que esses mortos estão melhores do que você. Ao menos viveram suas vidas e morreram cada um no seu próprio tempo. Você está aqui... como se estivesse morta em vida”. Não respondi na hora, mas foi nesse momento que comecei a voltar para mim.
Talvez encarar a finitude de perto nos ensine que o supérfluo perde lugar de destaque quando sabemos que a vida na terra um dia acaba. Porque, quando entendemos que tudo passa, algo em nós se reorganiza.
Se eu pudesse conversar com o Vinícius de Moraes, diria a ele que, de fato, sim, a morte nos angustia. Mas ao encararmos de frente essa angústia, temos a possibilidade de aprender quais são as verdadeiras urgências da vida e que viver usando máscaras pode nos custar caro.
Desde o dia no cemitério com meu marido, tenho tido menos medo. Não porque a vida tenha se tornado mais simples, mas porque parei de tentar consertar o passado e de adivinhar o futuro. Tenho aprendido, aos poucos, a gastar minhas energias com o único tempo ao qual temos acesso: o agora.
Talvez seja por isso que, mesmo com quase quarenta, escolhi me tornar professora. Vejo em cada rosto que encontro uma possibilidade de entrega. Tenho a chance de trazer alguém para o agora, ajudando a encontrar sentido em sua própria existência.
E, no fim das contas, nem todas as coisas importam, mas sim, importa mesmo é viver cada momento seguindo o que está no coração. E é isso que, de fato, faz a vida valer a pena.
Sobre a autora:
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

