O dia em que eu entendi

Esses dias foi primeiro de maio. E, de novo, volto à casa dos meus avós. No mês de maio daquele ano – 1994.
Era domingo. Eu estava na sala de TV, sozinha, assistindo ao Grande Prêmio de San Marino. Meus irmãos e meus primos estavam no quintal, rindo e conversando. Só eu estava lá.
Fui a primeira a ver a notícia: Ayrton Senna tinha batido e não dava sinal de dentro do carro. Eu não conseguia acreditar, embora ainda houvesse alguma esperança de que aquilo não passasse de um pesadelo.
O almoço ficou pronto. Desliguei a TV. Na mesa, fui eu a pessoa a contar. Ninguém acreditou. Apenas depois, quando o repórter de Globo, com lágrimas nos olhos, confirmou a notícia em rede nacional.
Até hoje não esqueço. O choro entalado na garganta, o cheiro da sala dos meus avós e a macarronada que não descia.
Eu, com meus doze anos de idade, fui obrigada a entender o que ninguém compreendia: aquela absurda sensação, que vem com uma perda tão inesperada.
Impossível de acreditar. Algo em mim também morria – a ilusão de que os fortes nunca morrem.
Entendi que, para morrer, basta apenas estar vivo. Sem dia e sem hora marcada.
E foi aí que a menina começou a perceber que nem tudo na vida segue um roteiro. A imprevisibilidade é o lobo mal do qual vivemos fugindo. E, naquele dia, aquele grande lobo calou a todos. E o que restava era aceitar.
Com o tempo, a mulher – que um dia já foi a menina de doze anos assombrada pelo grande lobo – descobriu que a vida nessa terra um dia acaba. E passou a entender que, por mais que se faça o cálculo, não há certeza sobre o que virá.
Sua única opção tornou-se viver o agora – mesmo sabendo que nada garanta que ele se repita amanhã.
A autora:
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

