Com o pé na calçada
Era véspera de Dia das Mães. Seis da manhã, e eu estava na cama, criando coragem para levantar. Eu ouvia os passos logo cedo pela casa. As crianças estavam ansiosas par ir logo para a escola. Haveria um piquenique como comemoração.
Na noite anterior, comprei o lanche. Estava tudo certo, tudo organizado. Eles iriam no horário normal e nós, mães, chegaríamos um pouco mais tarde.
Assim que cheguei, conheci a professora, encontrei outras mães e me vi mergulhada naquele mundo colorido, cheio de histórias e mais histórias. Um universo no qual, há alguns anos, jamais me imaginaria: segurando um prato de salgados e tentando encontrar uma vaga na toalha xadrez para sentar.
Enquanto procurava um espaço, o que via era um turbilhão: criança andando, criança correndo com criança, mãe conversando com mãe, o filho de uma falando com o filho de outra, todos comendo e misturando assuntos de todo tipo.
Todo ano era assim. E eu nunca soube muito bem o que fazer. Só depois de perceber que a maioria das mulheres ali também se sentia um pouco perdida é que comecei a me achar mais normal e até a relaxar diante daquele caos.
É sempre assim: não sei se converso, se dou atenção para os meninos, se fico sentada ou se fico em pé. Mas uma coisa nunca muda. Quando menos espero, é neles que fixo o meu olhar. E, num piscar de olhos, lá estou eu na quadra, assistindo a um jogo de basquete ou a uma partida de futebol.
Sinto um alívio profundo quando percebo que estão bem ali, sendo felizes naquele momento que foge ao controle esperado de uma mãe. Por um instante, consigo esquecer a sufocante sensação de nunca me achar suficiente para eles.
Mas, por outro lado, compreendo que essa culpa vem no pacote de sensações intensas que nasceram no dia em que me tornei mãe.
Quando penso em quem eu era antes, por um momento sinto saudades. Mas esse vazio vai embora rápido, como se aquela vida pertencesse a alguém que já não sou. Especialmente quando chego em casa e respiro toda a vida que se expressa em cada camada do meu caos.
Saindo da escola naquele dia, com o pé na calçada, já do lado de fora, senti uma pontada de choro preso na minha garganta. Não entendi o motivo na hora. Só depois fui perceber que talvez fosse o sinal da consciência de que aquilo tudo um dia vai acabar.
O alívio que senti na saída, ao deixar toda aquela confusão pra trás, era, na verdade, o começo de uma saudade antecipada de um tempo que não volta mais.
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: @fabiana_margonato

