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“O velho e o mar”, de Ernest Hemingway


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 19/02/2026
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  1. A história

          “O velho e o mal” é um livro que desde que o conheci nunca mais o deixei de lado, seja pela sua bela história, seja pelo seu estilo de escrita conciso. Para mim, acompanhar a história do velho pescador Santiago é sempre emocionante, por mais que, devido às várias leituras, eu tenha praticamente decorado as suas falas.

          Eu acho emocionante ler como que Santiago se relaciona com Manolin, um garoto que ele ensinou a pescar; é emocionante ver a penúria do velho, mas, mesmo assim, ele não ser amargo; e é belíssimo vê-lo, após mais de oitenta dias sem pescar nada, ainda assim se lançar ao mar com esperança de dias melhores. O garoto, por ordem dos pais, não mais acompanhará o velho professor, pois, diziam, o velho era um azarado e o garoto tinha de pescar; apesar disso, Manolin era em tudo solidário ao mestre, a ponto de que cuidava de suas tralhas e até de sua alimentação. Trata-se de uma bonita relação entre professor e aluno.

           E como inicia-se a história? Com uma suscinta, mas suficiente descrição de Santiago. Logo nas primeiras linhas é possível ver o estilo de escrita de Hemingway, algo tão bem apresentado em “Paris é uma festa”. O mestre estadunidense se pautava em verbos e substantivos, mas não em adjetivos; além disso, a teoria do iceberg também é nítida, pois ele só descrevia o essencial. Vamos ao segundo parágrafo de “O velho e o mar”:

 

O velho pescador era magro e seco, e tinha a parte posterior do pescoço vincada de profundas rugas. As manchas escuras que os raios do sol produzem sempre, nos mares tropicais, enchiam-lhe o rosto, estendendo-se ao longo dos braços, e suas mãos estavam cobertas de cicatrizes fundas, causadas pela fricção das linhas ásperas enganchadas em pesados e enormes peixes. Mas nenhuma destas cicatrizes era recente. (Hemingway, 2022, p. 13-14).

 

          O velho então vai ao mar, mas não para pescar qualquer peixe, mas ele queria reverter o seu quadro de azar. Para tanto, nada melhor do que se lançar ao mar, mas, não às águas próximas da costa, mas distante, de modo que pudesse atingir os peixes grandes.

          Depois de horas no mar, e com a esperança e a atenção atentas, eis que Santiago sente um forte puxão em sua linha. Foi um puxão tão violento a ponto do experiente pescador saber que estava diante de um peixe que o redimiria da vergonha. Desde o início a luta se revelou árdua, seja por causa do peixe em si, gigante, seja porque o velho estava sozinho, seja porque ele estava longe da força que um dia tivera. Apesar disso, quem nasceu para pescar tem que pescar.

          Ao ver a batalha do velho com o mar (e com o peixe), é como se o leitor também se lançasse a lutar. Ao menos comigo é assim. Para mim, o que seriam o mar e o espadarte fisgado por Santiago? A luta para me formar, a luta para dominar os meus instintos, a luta para pacificar conflitos, a luta contra monstros... Às vezes, eu venci as batalhas, mas não sem ter recebido cicatrizes; às vezes, eu fui derrotado. A exemplo de Santiago, as minhas mãos e o meu rosto sangraram e eu recebi diversas intempéries que me colocaram à prova.

          O que subsiste é que Santiago não desiste do peixe, por mais que para retirá-lo da água tivesse de se colocar a todo tipo de prova, tanto física quanto em relação a tubarões. Não é preciso dizer detalhes e como que “O velho e o mar” termina, mas, isto sim vale a pena dizer, essa obra é uma jornada pelo mar, que bem pode simbolizar as nossas vidas. Trata-se de uma parábola, ou de um conto de fadas, ou de uma história trágica, em que Santiago é um pescador e que nós, leitores de Hemingway, ora somos levados por Santiago e ora pelo mar. Dentre as reflexões do velho, uma me emociona em especial, valendo trazê-la abaixo:

 

Lembrou-se da ocasião em que pescara um casal de espadartes. O peixe macho deixa sempre que a fêmea se alimente primeiro, e de fato assim fora: a fêmea mordeu a isca e, sentindo-se presa, encheu-se de medo, lançando-se numa luta selvagem e desesperada que depressa a cansou. Durante todo esse tempo o macho ficou ao lado dela, atravessando a linha e circundando-lhe em volta à tona da água. Andara tão perto, que o velho chega a ter medo que ele cortasse a linha com a cauda tão aguçada e quase tão grande como uma foice grande. Quando o velho a enganchou e lhe deu uma série de pancadas que a deixaram quase morta e, depois, com a ajuda do garoto, a içou para bordo, o macho ainda continuou junto ao barco. Depois, quando o velho estava limpando as linhas e preparando o arpão, deu um grande salto no ar, mesmo ao lado do barco, para ver onde estava a fêmea, e voltou a mergulhar nas profundezas, com as asas brancas, as barbatanas peitorais, completamente abertas. E ficou imóvel nessa posição. Era lindo, lembrava-se o velho pescador. E assim permanecera durante muito tempo, de barbatanas abertas, numa posição majestosa e sofrida.

“Foi a coisa mais triste que vi desde que passei a pescá-los”, pensou o velho. “O garoto também ficou triste. Pedimos desculpas ao peixe fêmea e o cortamos depressa.”

- Gostaria tanto que o garoto estivesse aqui – disse em voz alta. Ajeitou-se de encontro à madeira arredondada do barco, sentindo o peso do grande peixe na linha que aguentava aos ombros, a afastar-se, sempre na direção que escolhera, onde quer que ele estivesse querendo chegar.

“Porque, afinal, foi por causa da minha traição que ele se viu obrigado a escolher um rumo para onde fugir”, pensou o velho.

“A sua escolha inicial fora se esconder nas águas escuras e profundas, para além de todos os laços, armadilhas e traições. A minha escolha fora ir procurá-lo onde jamais alguém ousara ir.” Sim, onde jamais alguém ousara ir. E agora estavam ligados um ao outro e assim se encontravam desde o meio-dia. E não havia ninguém para ajudar nem a um nem a outro.” (Hemingway, 2022, p. 32-53).

 

          Novamente se vê o mestre, em obra de 1951, a demonstrar como se constrói uma descrição e como que é possível tocar o leitor em seu íntimo sem, contudo, ser piegas. Tendo isso em vista, agora é possível tratar da escrita de “O velho e o mar”.

 

2. A escrita

          Em 2023 tive uma das experiências intelectuais mais profundas da minha vida: escrever um romance. O título da obra é “A casa” e nela eu conto a história de uma família por meio de uma casa que estava caindo aos pedaços, além de estar enfestada por ratos e baratas. Porém, o que isso tem a ver “O velho e o mar” com “A casa”? Tudo, afinal, enquanto eu escrevi eu deixava ao meu lado a obra de Hemingway, relendo-a continuamente, pois considero o trabalho do Nobel de Literatura de 1954 um modelo. Em “O velho e o mar” nada está solto, nenhuma palavra encontra-se em acaso ou em excesso, de modo que eu queria atingir essa pureza.

          Além disso, eu tenho por preciosos o início e o final da novela do mestre, que conseguem ser essenciais, belos e trágicos a um só tempo. Assim, transcrevo o início e o final:

 

Ele era um velho que pescava sozinho em seu barco, na Gulf Stream. Havia oitenta e quatro dias que não apanhava nenhum peixe. Nos primeiros quarenta, levara em sua companhia um garoto para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do garoto, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, um azarado da pior espécie, puseram o filho para trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes em apenas uma semana. O garoto ficava triste ao ver o velho regressar todos os dias com a embarcação vazia e ia sempre ajudá-lo a carregar os rolos de linha, ou o gancho e o arpão, ou ainda a vela que estava enrolada à volta do mastro. A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente. (Hemingway, 2022, p. 13).

 

Lá em cima, na cabana, o velho estava dormindo de novo, com o rosto escondido no monte de jornais que lhe servia de almofada. O garoto estava sentado a seu lado, observando-o. O velho sonhava com leões. (Hemingway, 2022, p. 124).

 

          Pelos excertos acima se vê, de forma completa, o método de escrita de Hemingway, tão bem exposto em “Paris é uma festa”. Um escritor não precisa dizer tudo sobre um assunto (teoria do iceberg); um escritor não precisa ser sentimentalista para tocar o leitor (verbo e substantivo); e um escritor pode ser simples, por meio de palavras simples, para atingir o universal (ser o mais verdadeiro possível). Por todos esses fatores é que, para mim, “O velho e o mar” é mais do que um livro, é um guia a ser seguido por quem gosta de escrever.

 

Ernest Hemingway. O velho e o mar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2022.

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


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