Hannah Arendt. “Entre o passado e o futuro”

É curioso como certos livros nos marcam. Conheci “Entre o passado e o futuro” em 2010, por meio de um curso do meu amigo Rogério Seixas, em Paranavaí, e nunca mais essa obra me abandonou. Naquele mesmo ano, ainda, a seleção do Mestrado em Educação da UEL a exigiu como bibliografia básica. Em um ano, li o livro de Hannah Arendt duas vezes e de lá para cá, 2022, o li mais duas, porém, o capítulo “A crise na educação” li cerca de dez.
Há alunos que me dizem que as “humanas” são mais fáceis do que as “exatas”; escuto isso também de colegas de trabalho. Eu penso: “Eles não sabem o que dizem.” Minha constatação não implica o caminho contrário, mas que essa divisão é simplesmente uma bobagem. Além disso, quem acredita serem fáceis as humanas, que leia “Entre o passado e o futuro”, e que leia o que Hannah Arendt escreveu como um todo.
A leitura que fiz do livro aqui em resenha foi ao mesmo tempo prazerosa e angustiante. Prazerosa porque eu pude captar alguns pontos que antes eu não havia entendido, e angustiante porque ainda há vários assuntos que estou longe de entender. As diferenças de tradução em grego? Provavelmente eu nunca venha a entender. O dia que eu conseguia ler trinta páginas era uma vitória, pois a média foi de quinze. Havia momentos em que eu precisava sair do meu quarto de estudos e dizer: “Calma, Felipe, você dará conta de ir até o fim.” “É bom me acercar de gênios, ainda que eles me desestruturem”. E assim eu seguia a leitura.
“A crise na educação”, por sua vez, é um texto essencial para mim e para os meus alunos. Desde 2014, quando passei a lecionar para o ensino superior com continuidade, eu o indico como texto obrigatório, e alerto: “Esse é um dos textos mais complexos que vocês lerão comigo.” E dito e feito, pois geralmente o é. Mas, o que também é curioso, meus alunos gostam de Hannah Arendt, a têm como referência e até nela se embasam para seus trabalhos de conclusão de curso, mesmo sendo um curso de Química.
À parte o que foi dito, de caráter pessoal, agora preciso comentar um pouco o livro para que seja possível saber qual o seu conteúdo. Para Hannah Arendt, em especial o mundo ocidental, passa por uma crise de autoridade, de liberdade, enfim, de tradição. Essa crise não se iniciou no século XX, ainda que este a tenha agravado com as suas guerras e revoluções científicas, mas remonta a séculos e até milênios anteriores. Diz a pensadora que há uma quebra entre o passado e o futuro (título, inclusive, do prefácio), isto é, uma quebra da própria tradição. O respeito ao passado já não sustenta mais a sociedade, como um dia sustentou a sociedade romana, e a verdade fatual possui na mentira o seu contrário, o seu pior adversário. Atualmente, século XXI, época em que as fake News estão cada vez mais intensas, é impossível discordar da constatação da filósofa. Assim, o presente, com a sua relação direta com o passado, passa a ser nebuloso, e o futuro, mais nebuloso ainda.
Para sustentar a sua argumentação, Hannah Arendt faz uso de sua vasta erudição. Diga-se de passagem, uma erudição em prol da vida. Sócrates, Platão, Aristóteles, Tucídides, Cícero, Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes, Hobbes, Montesquieu, Kant, Marx, Kierkegaard, Nietzsche e Heidegger aparecem o tempo todo como companheiros de viagem, assim como Homero, Virgílio, Sófocles, Shakespeare e Kafka. O que é interessante é que a pensadora não os utiliza enquanto adereço, para dizer “Olhem, sou culta”, mas observando atentamente as vitórias e as contradições desses grandes pensadores. O caminho traçado pela filósofa é árduo, assim como árduo é o conhecimento, até porque, do contrário, ela se negaria, pois, segundo as suas próprias palavras, a sociedade de massas, com a sua cultura de massas, perigosamente tende, com a sua liberdade, a levar a cultura a ser mais um produto a ser consumido, no final das contas, um entretenimento de massas. E contra o entretenimento de massas ela duvida que a cultura possa resistir.
A cultura de massas passa a existir quando a sociedade de massas se apodera dos objetos culturais, e o perigo é de que o processo vital da sociedade (que como todos os processos biológicos arrasta insaciavelmente tudo que é disponível para o ciclo de seu metabolismo) venha literalmente a consumir os objetos culturais, que os coma e destrua. Não estou me referindo, é óbvio, à distribuição em massa. Quando livros ou quadros em forma de reprodução são lançados no mercado a baixo preço e atingem altas vendagens, isso não afeta a natureza dos objetos em questão. Mas sua natureza é afetada quando estes mesmos objetos são modificados – reescritos, condensados, resumidos (digested), reduzidos a kitsch na reprodução ou na adaptação para o cinema. Isso não significa que a cultura se difunda para as massas, mas que a cultura é destruída para produzir entretenimento. (...) Muitos autores do passado sobreviveram a séculos de olvido e desconsideração, mas é duvidoso que sejam capazes de sobreviver a uma versão para entretenimento do que eles têm a dizer. (ARENDT, 2009, p. 260).
Se a cultura corre risco, sendo ela destinada à “imortalidade”, quanto mais as demais coisas. É nesse horizonte, de compreensão da crise da tradição, da autoridade e da liberdade, que a crise na educação aparece. Primeiro ponto a se considerar sobre esse assunto é que a crise na educação é algo que deve ser visto desde uma perspectiva geral, e não local, por mais tentador que seja, do contrário, a escola se torna o lugar por excelência para corrigir os males do mundo, o que é um erro, tanto de poder quanto de conteúdo. De poder porque a escola não pode tudo, por mais que possa muito, e de conteúdo porque a escola tem outras finalidades. É sob o erro (ou seria uma mentira deslavada?) de que a escola pode tudo, que muitos políticos se intrometem na educação, dando-lhe mais pesos do que ela pode suportar. É isso que Masschelein e Simons criticarão no livro “Em defesa da escola: uma questão pública”, analisarem a doma em relação à escola chamada politização.
Os estrategistas políticos sempre são tentados a olhar para a escola em busca de soluções de problemas sociais tais como a radicalização da sociedade, a intolerância e o crescente uso de drogas. A escola, dessa forma, se torna o lugar e o tempo para remediar esses problemas sociais. Isso significa que a escola é considerada responsável (pelo menos parcialmente) por resolver problemas sociais; os problemas sociais, culturais e econômicos são traduzidos como problemas de aprendizagem, ou uma nova lista de competências é acrescentada a um currículo. Essa primeira tática pode ser descrita como domar a escola por uma politização da escola. O que é problemático sobre isso não é somente a distribuição desequilibrada de tarefas entre a escola e a política, entre os professores e os políticos. Na verdade, há mais coisas em jogo do que sobrecarregar a equipe de professores. Significa, acima de tudo, que a escola é incumbida de tarefas que são impossíveis de serem cumpridas sem abandonar a própria escola. Com efeito, a geração jovem é, simultaneamente, considerada responsável pelos problemas sociais existentes e pela realização do sonho político de outra sociedade melhor. Nesse sentido, a geração jovem assume a responsabilidade que a velha geração não é mais capaz ou não está disposta a carregar. Dito francamente: é uma expressão de uma sociedade irresponsável que não mais segue o caminho da mudança política, mas, em vez disso, olha para a nova geração e suspende o seu tempo livre em nome de tratar de desafios excepcionais, urgentes, no caminho para a nova sociedade. (MASSCHELEIN & SIMONS, 2019, p. 109-110).
Que preciosidade é para o educador tomar contato com “A crise na educação”, pois ele terá um outro olhar para a pergunta “Por que Joãozinho não sabe ler” (ARENDT, 2009, p. 222). Além disso, ele passará a responder, ao menos, assim deseja a pensadora, a crises com reflexões, e não com preconceitos. É muito comum que, diante de crises, pessoas imaturas politicamente queiram jogar tudo para o alto. Isso, na maioria das vezes, só trará mais problemas, seja no âmbito da família, da escola ou do Estado, já que as coisas se interrelacionam. É fácil ver o “jogar tudo para o alto” quando se ouve “a democracia não presta” e “o bom é voltar à ditadura militar”. Se porventura alguém de outro país ler este livro, em especial de um país que não tenha apelos autoritários com frequência, não se espante, porque esse é um exemplo bastante usual no Brasil.
Em “Entre o passado e o futuro”, obra que pode ser considerada uma introdução ao pensamento da filósofa, por conter vários de seus principais temas, Arendt também tratou do problema do totalitarismo. Na época, década de 1960, a obra “Eichmann em Jerusalém” causou um rebuliço nos meios judeus e na própria academia, o que é possível de ser visto no filme “Hannah Arendt – Ideias que chocaram o mundo”, de Margareth von Trotta. Acusaram Arendt de fazer uma defesa do criminoso nazista, o que é uma mentira. Para responder com clareza a essas acusações, ela escreveu o capítulo “Verdade e mentira”, o penúltimo de “Entre o passado e o futuro”. É desse capítulo as pérolas abaixo:
A marca distintiva da verdade fatual consiste em que seu contrário não é o erro, nem a ilusão, nem a opinião, nenhum dos quais se reflete sobre a veracidade pessoal, e sim a falsidade deliberada, a mentira. (ARENDT, 2009, p. 308).
O mesmo ocorre quando o mentiroso, sem poder para fazer com que sua falsidade convença, não insiste sobre a verdade bíblica de sua asserção, mas pretende ser esta sua “opinião”, à qual reclama direito constitucional. Frequentemente o fazem grupos subversivos e, em um público imaturo politicamente, a confusão resultante pode ser considerável. O apagamento da linha divisória entre verdade fatual e opinião é uma das inúmeras formas que o mentir pode assumir, todas elas formas de ação. (ARENDT, 2009, p. 309).
Como o mentiroso é livre para moldar os seus “fatos” adequando-os ao proveito e ao prazer, ou mesmo às meras expectativas de sua audiência, o mais provável é que ele seja mais convincente do que o que diz a verdade. (ARENDT, 2009, p. 311).
(...) o resultado de uma substituição coerente e total da verdade dos fatos por mentiras não é passarem estas a ser aceitas como verdade, e a verdade ser difamada como mentira, porém um processo de destruição do sentido mediante o qual nos orientamos no mundo real – incluindo-se entre os meios mentais para esse fim a categoria de oposição entre verdade e falsidade. (ARENDT, 2009, p. 317-318).
Kafka, escritor admirado por Hannah Arendt, em “O Processo”, metaforicamente antecipou os riscos de uma sociedade com controle total sobre os indivíduos. Nesse tipo de sociedade, para ser redundante, tudo está sob suas mãos, e ir contra, ir contra a mentira, por exemplo, é algo extremamente arriscado, pois a verdade deve conter uma alta dose de prazer e de conveniência para poder existir. Hannah Arendt, ao “narrar o fato” chamado Eichmann, tocou em assuntos desagradáveis, em tabus, e isso foi a causa, ou uma das causas, da ira que ela disparou. Arendt entrou nos cartórios de “O Processo” e nos contou o que lá se passava. Com isso ela fez uma defesa da burocracia e dos burocratas? Claro que não.
Uma vez mais, ao terminar um texto da filósofa alemã, eu próprio estou em crise. Ela não alivia o leitor, e ai de quem quiser lê-la por diversão ou por eruditismo, o valor será bem baixo e totalmente contrário do que a pensadora pretendeu. Ela pensava e vivia, vivia e pensava.
Hannah Arendt. Entre o passado e o futuro. Trad. de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2009.
Jan Masschelein & Maarten Simons. Em defesa da escola: uma questão pública. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2019.

