A justificação pela fé sem obras da lei (Rm 3.21-22a)
Romanos 3.21-22(a): “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que creem”
Na semana passada, vimos como Paulo demonstra aos seus leitores, nos versos de 19 a 20 que, com base no conhecimento das exigências da lei de Deus, todos nós somos culpados diante de Deus, pois não somos capazes de cumpri-la com perfeição. Dito isso, Paulo concluiu o verso 20 dizendo que “[...] ninguém será justificado diante dele por obras da lei,”. Como, então, podemos ser salvos senão por meio de uma vida santa baseada na obediência à lei? Como podemos ser considerados justos por Deus e aceitos em sua presença santíssima senão pelas obras da lei? A resposta de Paulo é: através da fé no Evangelho. É isso que o apóstolo trata nos versos de 21 a 22. Vejamos.
Paulo começa dizendo que “[...] agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus”. A expressão “agora” não significa que Deus salvou os pecadores pela lei “antes” (no Antigo Testamento), e “agora” (Novo Testamento) sem lei. A salvação sempre foi pela graça. Abraão foi justificado pela fé. O agora, do verso 21, apenas dá destaque ao tempo de manifestação pela da justiça mediante a fé em Cristo. É como comentou Calvino:
“[...] o significado [de agora] é que, pela pregação do evangelho, após a aparição de Cristo na carne, a justiça da fé foi revelada. Não, no entanto, segue-se que foi escondido antes da vinda de Cristo; pois uma dupla manifestação deve ser notada aqui: a primeira no Antigo Testamento, que foi pela palavra e sacramentos; a outra no Novo, que contém a conclusão de cerimônias e promessas, como exibido no próprio Cristo: e podemos acrescentar que pelo evangelho recebeu um brilho mais completo.”
Ou seja, agora, com a vinda de Cristo e à parte da lei como meio de salvação, “[...] se manifestou a justiça de Deus.” Mas o que Paulo quis dizer com a expressão “justiça de Deus” manifesta? Essa expressão é a mesma que se encontra no capítulo 1, verso 17. Segundo Murray (2003, p. 60) se é justiça de Deus, não é do homem, portanto Deus é seu autor. E, tal justiça “[...] satisfaz todos os requisitos da retidão divina e que, portanto, tem valor diante de Deus”.
Ou seja, o homem pecador está em débito com a justiça de Deus e por sua própria condição depravada, ele não pode nem sequer começar a tentar produzir essa justiça para satisfazer os requisitos da retidão divina. Portanto, falido em si mesmo, sua solução para ser aceito por Deus precisa vir de outra fonte. Por isso, Deus propõe a concessão de sua própria justiça! É a justiça de Deus manifesta à parte das obras da lei.
Por outro lado, Paulo lembra que essa justiça já vinha sendo profetizada e declarada no Antigo Testamento, ainda que sua manifestação plena tenha vindo com Cristo. Essa justiça já era, diz Paulo no verso 21, “[...] testemunhada pela lei e pelos profetas;”. A lei e os profetas – ou o AT – já apontavam para uma salvação mediante a justiça de Deus sem contribuição humana, ou “sem lei”. Mas a manifestação plena dessa graça já testemunhada veio com a chegada Cristo, na plenitude dos tempos. Portanto, Paulo mantém aqui tanto a continuidade como a unidade entre os testamentos, ainda que reconheça a plenitude da manifestação da justiça de Deus no tempo da encarnação, vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus.
Mas onde essa justiça de Deus profetizada e prometida pelo Antigo Testamento está agora? Onde ela se manifestou e como o homem pecador a encontra/recebe para ser salvo? Essa justiça divina é manifesta na vida e obras da pessoa do Senhor Jesus Cristo, como Paulo diz na sequência: “[...] justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo,”. Aqui vemos onde está a justiça divina e como se apropriar dela para a nossa justificação: ela está em Jesus Cristo. O Filho bendito e eterno de Deus Pai foi enviado, encarnou, assumiu a nossa natureza, submeteu-se à Lei de Deus, vivendo em perfeição debaixo dela em todo tempo para imputar a nós sua justiça a fim de fôssemos justificados, e mediante sua morte e ressurreição, fossemos perdoados e aceitos por Deus. Aí está a justiça de Deus: no Evangelho! E, o meio de apropriação da justiça divina em Jesus Cristo é a fé, como diz Paulo: “mediante a fé”. Essa é a instrumentalidade da justificação. Cristo e sua justiça são o objeto, mas a nossa fé é o instrumento de apropriação (lembrando que a própria fé é um dom de Deus, cf. Efésios 2.8).
Mas o que é fé? Fé nas Escrituras nunca é um sentimento positivo ou um otimismo vago e infantil. Não é declarar que tudo vai dar certo ou meramente ser alguém convicto de tudo. Fé, segundo a Bíblia, é um dom de sua graça que nos capacita a nos apropriarmos com gratidão e temor da justiça salvadora de Deus na pessoa e obras de Jesus Cristo. Isso é fé. E essa fé é o único e universal critério para que um pecador seja salvo, independentemente de quem ele seja.
Por isso Paulo diz, na primeira parte do verso 22: “[...] para todos [e sobre todos] os que creem”. Ou seja, todo aquele que vier a Cristo com fé, receberá a justiça de Deus que o justifica. Não há diferença de valores entre os crentes. Não há diferentes formas de se salvar (um por isso, outro por aquilo). Todos – e apenas esses – que creem em Cristo, serão justificados diante de Deus, independente de obras da lei ou “sem lei”.
Portanto, volte agora novamente sua atenção para a expressão “sei lei” do verso 21. O que ela nos informa, afinal de contas? Ela nos informa que a promessa de justificação e perdão de pecados mediante a concessão da justiça divina por meio da fé na pessoa e obras de Cristo independe de qualquer contribuição humana, seja ela preparatória, acessória ou subsidiária. Nossas obras de obediência à lei de Deus não são capazes de contribuir em nada com a nossa justificação. Ela não nos prepara para sermos justificados; ela não ajuda a Deus a nos justificar e muito menos constrange Deus a nos justificar.
E essa é a mensagem central de Paulo na carta aos Romanos e nestes versos de modo especial: a justificação pela fé em Cristo não possuí qualquer relação de dependência com obras da lei. As obras da lei em nada contribuem para a nossa justificação. Antes, a justificação em Cristo é somente pela graça de Deus e recebida somente pela fé.
Amém.
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
