Minha empresa está atrasada para a 4ª revolução industrial?
Antes da tecnologia 4.0, a empresa precisa adquirir capacidade de aprendizagem Operacional em nível Organizacional, se não os resultados não vêm.
Por Atílio - GAP — Gestão Ágil de Processos - 27 de maio de 2026
Dentro do contexto de gestão de processos industriais, seja de grandes ou pequenas empresas, é comum que se aborde o tema da Indústria 4.0, que é a quarta revolução da indústria e se baseia nas tecnologias de gestão de dados e na automação de processos. Fala-se, ainda, na 5ª revolução da indústria, que seria baseada na inteligência artificial. Esta ainda não é tratada como um evento imediato, mas sobre a 4.0 existe um consenso de que é o que estamos vivendo hoje.
Porém, quando você olha para o seu processo, há grande chance de pensar que está atrasado em relação até mesmo à 4ª revolução, já que sua empresa pode ainda não estar automatizada e considerando, principalmente, que essa automação custa muito caro, especialmente para a realidade de empresas menores. Além dos custos, o que limita a iniciativa de investir é que é muito difícil planejar qual será o retorno financeiro desse investimento.
É justamente nesse ponto que este artigo quer tocar: no retorno do investimento em tecnologia da Indústria 4.0. Infelizmente, não temos como tranquilizar o gestor sobre esse sentimento de atraso, mas há algo que pode ser feito antes de começar a investir em tecnologia e que pode colocar sua empresa à frente de muitas que já estão investindo pesado na I4.0: o investimento em capacidade de Aprendizagem Organizacional.
Foi realizado um estudo de caso em uma empresa do Canadá, com cerca de 400 funcionários, que havia investido em tecnologia de coleta de dados em tempo real havia seis meses e não obteve nenhuma melhoria significativa no seu desempenho produtivo. O pesquisador procurou descobrir o motivo. O resultado da pesquisa foi simples e, ao mesmo tempo, surpreendente: a empresa investiu pesado em tecnologia de coleta de dados em tempo real, mas não mudou sua maneira de tomar decisões.
Antes, as informações eram coletadas através de preenchimento manual dos operadores; uma pessoa compilava essas informações em uma planilha no final da semana e enviava ao gestor, mas essas informações nem chegavam a ser lidas. O gestor fazia uma reunião semanal de alinhamento com a operação e a equipe de manutenção realizava uma reunião quinzenal para alinhamento de prioridades. Esses rituais continuaram acontecendo exatamente da mesma forma, mesmo após o investimento em tecnologias de captação de dados em tempo real.
No chão de fábrica, os operadores não usavam o sistema, porque não foram ensinados e entendiam que era um sistema da equipe de manutenção, enquanto a equipe de manutenção esperava que os operadores usassem o sistema para apontar o que deveria ser feito.
Mais ainda foi descoberto: a gestão da manutenção executou onze mudanças no sistema produtivo de uma vez, alegando que elas eram resultado do novo sistema de coleta de dados, mas os operadores relataram que se tratava de solicitações antigas, feitas por eles mesmos. E o pior: essas onze ações também não ofereceram resultados significativos.
Isso quer dizer que a gestão dessa empresa, apesar do investimento que fez, não investiu naquilo que funciona como mediação entre a tecnologia da Indústria 4.0 e os resultados no desempenho operacional: a capacidade de Aprendizagem Organizacional.
Mas a grande questão nesse assunto é que a Aprendizagem Organizacional é dividida em três níveis: individual, de equipe e organizacional.
Uma pesquisa realizada em 135 empresas brasileiras que investiram em tecnologias da Indústria 4.0 revelou que o nível de Aprendizagem Organizacional que medeia a relação entre I4.0 e melhoria do desempenho operacional é o organizacional. Isso quer dizer que é preciso focar na capacidade de gestão da empresa.
O que limitou os resultados na empresa canadense não foi necessariamente a falta de capacidade individual dos operadores aprenderem ou a incapacidade das equipes de aprenderem juntas, mas a falta de capacidade de aprendizado da própria organização, especialmente da gestão, que não mudou sua forma de agir, mesmo tendo em mãos uma nova ferramenta.
Isso é muito importante porque, na maioria dos casos, quando se fala em aprendizado nas organizações, pensa-se imediatamente em treinamentos para operadores e líderes operacionais, como se a gestão já tivesse atingido o máximo do aprendizado necessário, inclusive sobre as novas tecnologias.
E isso se conecta com um erro bastante comum: utilizar informações na tomada de decisão sem checar sua confiabilidade.
No caso da empresa do Canadá, a manutenção realizou uma ofensiva sobre o processo com onze ações simultâneas e a gestão permitiu isso. Aí já existe um primeiro problema, porque, ao executar onze ações de uma vez, fica impossível medir qual delas realmente foi eficaz e qual delas não foi.
Mas o erro mais grave foi outro: a manutenção alegou estar agindo com base no novo sistema de coleta de dados e a gestão aceitou isso sem validação. Somente a pesquisa feita mais tarde verificou que essa informação era falsa.
Não vamos entrar profundamente no tema da confiabilidade das informações na tomada de decisão, mas é necessário entender que informações também precisam passar por um controle de qualidade, para verificar se são confiáveis ou se podem estar induzindo a erros.
Para finalizar, a capacidade de Aprendizagem Organizacional em nível organizacional se refere aos sistemas da empresa, à cultura, aos processos formais, à estrutura para compartilhar conhecimento, à liderança e à comunicação organizacional. É a capacidade da empresa de capturar conhecimento, distribuir informação e transformar aprendizado em rotina.
Então, em relação ao sentimento de atraso na 4ª revolução industrial, talvez seja mais valioso olhar primeiro para o nível de aprendizagem organizacional da sua empresa e começar a trabalhar nele, para que, quando a tecnologia chegar, ela consiga realmente entregar resultados significativos.

