Zygmunt Bauman. “Estranhos à nossa porta”

Um tema que me ocupa desde 2015 é o das imigrações, com destaque para os refugiados. Incomodava-me, assim como até hoje me incomoda, saber que apesar de todo avanço da civilização, ainda há esse mal-estar que a acompanha: milhares de pessoas em estado calamitoso, milhares de seres humanos desumanizados. Foi com essa perspectiva que me coloquei a estudar o êxodo venezuelano, o que me rendeu a criação de dois livros, alguns artigos e de duas exposições fotográficas.
Todavia, é óbvio que esse tema, tão urgente e visível (visível?), alcançou vários autores, como o polonês Zygmunt Bauman. É de Bauman o livro “Estranhos à nossa porta”, em que ele estuda a “crise migratória”, com ênfase para a Europa e os Estados Unidos. Para investigar esse problema, um dos focos de sua análise é que os refugiados recebem pouca solidariedade social, se comparado com o tamanho de sua necessidade. E essa baixa solidariedade não vem apenas de quem está longe da pobreza e da miséria, mas de pessoas que se encontram na base social. Por que isso? Segundo o sociólogo, a quem está na base é interessante e até prazeroso saber e ver que há sempre alguém mais na base ainda. Não, Bauman não cai no simplismo de culpar a base por esse problema, mas também não a exige de críticas.
Cabe destacar, desde logo, que a xenofobia, um mal que existe há milhares de anos, tem se agravado na sociedade do século XXI, seja porque nunca antes houve tantas pessoas sobre a Terra, seja porque esse é um discurso fácil e agregador. Fácil porque identifica um suposto mal, e agregador porque ajuda a criar o mito nacional, que, segundo Edgar Morin, é um “racismo virtual”: “Assim, a ideia de nação contém um racismo virtual, que se torna presente quando o segundo polo prepondera.” (MORIN, 2003, p. 68). E que mito é esse? “França para os franceses”, “América para os americanos”, ou, “Brasil acima de tudo”. É fruto da xenofobia, que promove a insegurança, a ideia de que “os imigrantes tirarão os nossos empregos”.
Acerca da relação entre imigrantes e perda de emprego dos nativos, isso é de fácil verificação. Fruto das minhas pesquisas com os refugiados venezuelanos, fui algumas vezes a Goioerê, onde há uma ONG que os acolhe e ajuda a conseguir empregos. Nessa pequena cidade do interior do Paraná era fácil ouvir o discurso da “perda de emprego”, apesar do espírito hospitaleiro (à la Kant) também observado.
Bauman deixa claro o motivo pelo qual a relação entre imigrantes e xenofobia é promovido, antes de ser combatido. Qualquer um racionalmente, moralmente (também à la Kant) poderia crer que a razão deveria pensar no bem, porém, ainda sob a esteira do filósofo alemão, a racionalidade tantas vezes se desvincula do agir moral. É esse também o pensamento trágico de Hannah Arent, trazido por Bauman. Vamos às palavras do polonês:
Para os indesejáveis que suspeitam ter chegado ao fundo do poço, a descoberta de outro fundo abaixo daquele em que eles próprios foram lançados é um evento de lavar a alma, que redime sua dignidade humana e recupera o que tenha sobrado de sua autoestima. A chegada de uma massa de migrantes sem teto, privados de direitos humanos não apenas na prática, mas também pela letra da lei, cria a (rara) chance de um evento assim. Isso ajuda muito a explicar a coincidência da recente migração em massa com o crescente sucesso da xenofobia, do racismo e da variedade chauvinista de nacionalismo; e o sucesso eleitoral, ao mesmo tempo espantoso e inédito, de partidos e movimentos xenofóbicos, racistas e chauvinistas, e de seus belicosos líderes. (BAUMAN, 2017, p. 18).
Outro tema importante trazido por Bauman é que os imigrantes são, segundo determinada perspectiva, precursores do “caos” e de “más notícias”. Isso é de fácil constatação. Poucos saem de sua pátria se nela há paz e pão. Em regra, as pessoas saem, mormente na condição de refugiadas, por causa de falta de paz e pão, e isso é um anúncio claro de que as coisas não vão bem. É claro que ninguém deveria se ausentar dos problemas da existência, como diz Sebastião Salgado: “Ninguém tem o direito de se proteger das tragédias de seu tempo, porque somos todos responsáveis, de certo modo, pelo que acontece na sociedade em que escolhemos viver” (SALGADO, 2014, p. 93); porém, na prática, muitos se protegem de bom tom. Isso é uma crítica moral? Pode até ser, mas, o que ocorre é uma burocratização, uma neutralização da vida, algo criticado por pensadores como Franz Kafka, Hannah Arendt e Zygmunt Bauman.
Enfim, quando vemos ou lemos algo sobre refugiados, nos salta aos olhos o seu estado de miséria. A foto abaixo foi tirada em 2018, em Boa Vista, e encontra-se no meu livro “Entre médicos e imigrantes”, quando milhares de pessoas esperavam por um prato de comida em uma igreja.

Em minhas pesquisas, cheguei a ouvir: “Por que você foi tão longe para ver a fome? No Brasil não tem?” Eis uma das faces do “Brasil para brasileiros”. “Por que falar dos venezuelanos? Não é melhor falar do nordeste?” Eis a face de certo senso comum sobre o nordeste. Exemplos como esses há aos montes. A questão, esta sim que pretendo destacar, é que a existência encontra-se inserida fragilmente no dia a dia. As pessoas, ao menos as que compõem a base social, possuem uma vida frágil, e o que os imigrantes fazem é deixar patente o que é latente à pessoa do povo. A máquina política, atenta aos clamores e ressentimentos populares, trabalha em prol da fragilidade, e não da força. Acerca da fragilidade da existência, diz Bauman:
Não se pode deixar de notar que o súbito e copioso aparecimento de estranhos em nossas ruas não foi causado por nós nem está sob nosso controle. Ninguém nos consultou, ninguém pediu nossa anuência. Não admira que as sucessivas ondas de novos imigrantes sejam percebidas com ressentimento como (recordando Bertolt Brecht) “precursores de más notícias”. (...) Eles, na amarga expressão de Jonathan Rutherford, “transportam as más notícias de um canto distante do mundo para as portas de nossas casas”. Eles nos tornam conscientes e nos lembram daquilo que preferiríamos nos esquecer ou, melhor ainda, fazer de conta que não existe: forças globais, distantes, ocasionalmente mencionadas, mas em geral despercebidas, intangíveis, obscuras, misteriosas e difíceis de imaginar, poderosas o suficiente para interferir também em nossas vidas, enquanto desconsideram e ignoram nossas próprias preferências. As “vítimas colaterais” dessas forças tendem a ser percebidas, por uma lógica viciada, como suas tropas de vanguarda, que agora estabelecem guarnições em nosso meio. Esses nômades – não por escolha, mas por veredicto de um destino cruel – nos lembram, de modo irritante, exasperante e aterrador, a (incurável?) vulnerabilidade de nossa própria posição e a endêmica fragilidade de nosso bem-estar arduamente conquistado. (BAUMAN, 2017, p. 20-21).
E o que fazem os governantes para melhorar a condição trágica dos refugiados? Ou o que fazem os governantes para “aliviar as ansiedades”? Nada – ou muita coisa. Nada porque a ansiedade só aumenta. As pessoas se super endividam, e esse é um dos temas mais urgentes para um direito do consumidor crítico; e se endividam e não recebem de contrapartida a felicidade, se é que uma situação pode caminhar ao lado da outra. E muita coisa, afinal, muito é dito. Há palavras e mais palavras lançadas sobre tudo. As séries “Immigration Nation” e “Realidade não Documentada” são interessantes para se assistir no que tange aos imigrantes e aos discursos políticos a esse respeito.
O que se percebe, o que se sente, é que de fato há um mal-estar no mundo, provocado não só por medo de desastres naturais, mas que possui participação humana. Há quem tenha medo do comunismo, há quem tenha medo de bandidos, há quem tenha medo de tantas situações que é impossível enumerá-las, e isso cresce dentro do ser humano e lhe angustia. Os políticos, que deveriam administrar a vida social de modo a torná-la mais viva, mais esperançosa, com frequência são belicosos, o que aumenta a ansiedade. Nas palavras de Bauman:
Os governos não estão interessados em aliviar as ansiedades de seus cidadãos. Estão interessados, isto sim, em alimentar a ansiedade que nasce da incerteza quanto ao futuro e do constante ubíquo sentimento de insegurança, desde que as raízes dessa insegurança possam ser ancoradas em lugares que forneçam amplas oportunidades fotográficas para os ministros tensionarem seus músculos, ao mesmo tempo que ocultam os governantes prostrados diante de uma tarefa que são fracos demais para levar a cabo. A “securitização” é um truque de mágica, calculado para ser exatamente isso. Ela consiste em desviar a ansiedade, de problemas que os governos são incapazes de enfrentar (ou não têm muito interesse em fazê-lo), para outros, com os quais os governantes – diariamente em milhares de telas – aparecem lidando com energia e (por vezes) com sucesso. (BAUMAN, 2017, p. 33-34).
Uma pessoa ansiosa é uma pessoa acuada, que facilmente pode ser levada de um lado para o outro. É nesse horizonte que vem o estímulo tão comum e tão fácil à agressividade e à ausência de diálogo. Ao invés de pontos, muros; ao invés de casas, campos de refugiados. A ansiedade não se combate criando “zonas de conforto”, criticadas por Bauman, que visam, desde o princípio, limitar e destruir o diálogo. Para se lidar com a ansiedade, e isso todo tratamento psicanalítico básico e sério o atesta, é preciso diálogos, conflitos e equilíbrios. Conflitos são inevitáveis, mas não precisam, não devem vir acompanhados de bombas, mas de equilíbrio. Sim, o equilíbrio é um ideal, mas algo a ser desejado e buscado. É preciso promover a paz. É preciso falar da paz.
O estímulo à agressividade, por sua vez, tão fácil de ser produzido, é o que se vê, por exemplo, quando se está diante de sentimentos racistas e xenofóbicos. É a tosca criação de um “nós versus eles”. Eu próprio, em 2018, quando estive na República Tcheca, país sob a presidência de Miloš Zeman, vi outdoors anti-imigrantes, afirmando que aquele país não precisava e não queria imigrantes. Na época, a guia tcheca disse a nós, turistas latinos, que aquela era uma das vergonhas que ela tinha acerca de seu país. A cada quilômetro eu via aquelas infames placas e ficada profundamente irado. Veja: uma ira chamava pela outra, mas, no meu caso, quero pensar que era uma justa ira, a mesma que fez Jesus derrubar as tendas dos vendilhões no templo de Jerusalém. Em um nível pedagógico, em “Pedagogia da Autonomia”, Paulo Freire também fala acerca de uma justa ira. Em um nível jurídico, em “Oração aos moços”, Rui Barbosa também trata dessa ira necessária. Enfim, os turistas eram bem-vindos, pois são os que “vêm e vão” (BAUMAN, 2017, p. 90), os que deixam pilhas de papéis (dinheiro).
O que vi na República Tcheca, o ódio ao estrangeiro, em especial ao estrangeiro pobre, também vi no Brasil, em Boa Vista, em 2020, nas eleições municipais. Um dos candidatos disse: “Na minha gestão municipal, venezuelano não terá privilégio.” E Outro asseverou: “Vamos limitar os atendimentos na saúde e vagas nas escolas para os imigrantes. Entendemos que a imigração é uma questão difícil e respeitamos todos os imigrantes, mas os boa-vistenses precisam voltar a ser prioridade para a prefeitura.” É novamente o discurso bem versus mal, “nós versus eles”, “Brasil acima de tudo”.
Acerca da relação entre Roraima e a Venezuela, escrevi largamente por meio de livros e artigos e não prolongarei essa discussão. Só o que vale a pena dizer aqui, nesta resenha, é que políticos que “falam duro” (BAUMAN, 2017, p. 38) ajudam a endurecer os corações, e isso não pode jamais ser algo positivo, apesar de muita gente agradecer. Bauman termina “Estranhos à nossa porta” falando sobre diálogo, e eu termino este texto clamando pelo diálogo.
Edgar Morin. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Trad. de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
Sebastião Salgado & Isabelle Francq. Da minha terra à Terra. Trad. de Julia de Rosa Simões. São Paulo: Paralela, 2014.
Zygmunt Bauman. Estranhos à nossa porta. Trad. de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

