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“A mente de Adolf Hitler”, de Walter C. Langer


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 05/02/2026
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           O livro de Walter C. Langer é, primeiramente, um relatório feito pelo psicanalista estadunidense com o intuito de investigar, para o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), órgão antecessor da CIA, a mente do então ditador da Alemanha. Todavia, esse trabalho ganhou força além do seu próprio tempo e finalidade, e pode ser lido atualmente sob vários aspectos (sem ser uma panaceia): enquanto um livro de história do século XX, enquanto um estudo biográfico e enquanto uma análise sobre personalidades autoritárias.

          Para expor sua investigação, o psicanalista delineia seis partes: 1ª Como ele acredita ser, 2ª Como o povo alemão o conhece, 3ª Como seus colaboradores o conhecem, 4ª Como ele se conhece, 5ª Análise e reconstrução psicológica e 6ª Seu provável comportamento o futuro. É interessante destacar que Walter Langer se vale de depoimentos de pessoas que foram próximas a Hitler e, além disso, cita e explora diversas falas do ditador, como as proferidas em discursos e em seu livro “Mein Kampf”.

          À parte esses aspectos formais, o que me atraiu na obra foi a construção histórica de Hitler, para, só então, passar-se a uma análise psicológica. Ouro aspecto que me atraiu foi a ausência de pressa de Langer em traçar um perfil psicológico para o nazista. E mesmo depois que chega a possíveis conclusões, ainda assim não o faz de forma moralista, do tipo: “eis o mal encarnado”.

          As citações de Hitler trazidas pelo psicanalista chegam a ser cômicas, se não fossem trágicas:

 

Você se dá conta de que está na presença do maior alemão de todos os tempos? (LANGER, 2018, p. 22).

Não posso estar errado. O que faço e digo é histórico. (LANGER, 2018, p. 22).

O treinamento das habilidades mentais é de importância secundária. (LANGER, 2018, p. 25).

Cumpro as ordens que a Divina Providência me atribuiu. (LANGER, 2018, p. 26).

Mas se a voz falar, então saberei que chegou o momento de agir. (LANGER, 2018, p. 26).

 

          Será essa “voz” que levará Langer à análise de que Hitler beira a esquizofrenia. O ditador, segundo é possível apreender, ao fim e ao cabo só ouve essa voz, que é chamada de “Divina Providência”. O Führer é de família católica, logo, cristão, todavia, de Jesus Cristo ele tem uma visão particularíssima, que não observa o Cristo crucificado e se apega somente a Jesus indo ao templo e em luta contra os comerciantes. O Jesus de Hitler não é amor.

          Deixando à parte essas considerações, cabe destacar o poderoso efeito da propaganda promovido pelo nazismo. Hitler era visto como um pai para a jovem Alemanha, alguém forte o bastante para levá-la à merecida glória, uma vez que, após a I Guerra, ela vivia em situação infame. Hitler não era forte apenas para a nação que ele tanto idolatrava, mas, antes, era forte para si. A ideia de que Hitler não era apegado à própria família não era visto como um problema, mas como virtude: ele amava tanto a pátria que os seus anseios eram marginalizados. E também era promovida a imagem de um ser humano austero, extremamente trabalhador. Veja-se tais imagens pelo excerto abaixo:

 

Hitler também é um homem de energia e resistência incríveis. Seu dia consiste de dezesseis a dezoito horas de trabalho ininterrupto. Ele é absolutamente incansável quando se trata de trabalhar pela Alemanha e pelo seu futuro bem-estar, e nenhum prazer pessoal pode interferir no cumprimento de sua missão. O homem comum não consegue imaginar um ser humano na posição de Hitler não tirando proveito de sua oportunidade. Ele só pode se imaginar na mesma posição deleitando-se com luxos, e, no entanto, ali está Hitler, que os desdenha totalmente. Sua única conclusão é que Hitler não é um mortal comum. Phillips relata o caso de um jovem nazista que lhe confidenciou: “Eu morreria por Hitler, mas não trocaria de lugar com ele. Ao menos, quando acordo de manhã, posso dizer: ‘Heil Hitler!’ Mas esse homem, ele não se diverte na vida. sem fumar, sem beber, sem mulheres! Só trabalho, até ele adormecer à noite!” (LANGER, 2018, p. 46-47).

 

          Acontece que o castelo hitlerista era de areia, como bem demonstrou Walter Langer. E essa areia significa, dentre tantas coisas, que Hitler teve inúmeros problemas familiares, uma boa parte sem sua culpa direta e outra por culpa direta. Claro que por ser um livro de psicanálise as culpas diretas e indiretas não são objetivas, pois muitas forças atuam sobre a vontade de um indivíduo. No entanto, por indiretas indica-se apenas situações que extrapolam as forças de Hitler, como ver o pai bater na mãe, e por diretas entende-se o domínio de Hitler sobre a sua sobrinha Geli.

          O que se percebe no livro “A mente de Adolf Hitler” é que as ações políticas do ditador bem podem ser lidas sob a profundidade psicanalítica. A Alemanha pode ser vista como a mãe do austríaco, e a Áustria enquanto imagem para o seu pai. Não ao acaso, a Áustria, nação mais antiga do que a Alemanha, era tomada tantas vezes com ira por parte de Hitler (este tinha resistências ao pai), e a Alemanha era sempre exaltada (a mãe de Hitler era 23 anos mais nova que o seu pai, e lhe paparicava).

          Feitas essas comparações, Langer então pode indicar com precisão os possíveis rumos da Alemanha, posto que conseguiu entender com suficiente clareza o seu Führer. Os rumos de um país podem ser lidos sob a ótica de um só indivíduo? Sim e não. Sim, porque Hitler reuniu em si as angústias de uma Alemanha rebaixada (o nazista, por diversas vezes, se viu inferiorizado na vida); e não, se há uma forte divergência qualitativa e quantitativa em um país, o que não parecia ser o caso na Alemanha do início e próxima da metade do século XX.

          O psicanalista, na parte final, indica o que poderia acontecer com Hitler, o que fez de forma didática por meio de oito hipóteses: 1ª Hitler pode morrer de causas naturais; 2ª Hitler pode pedir asilo político num país seguro; 3ª Hitler pode morrer em batalha; 4ª Hitler pode ser assassinado; 5ª Hitler pode enlouquecer; 6ª Os militares alemães podem se revolver e prendê-lo; 7ª Hitler pode cair em nossas mãos; 8ª Hitler pode se suicidar. A última hipótese, segundo Langer, “(...) é o desenlace mais plausível” (LANGER, 2018, p. 220).

          Um artista dos sentimentos humanos, como Walter Langer, tem uma intuição profética ao trazer à baila aspectos sombrios da vida de Adolf Hitler, e muito mais pelas suas conclusões. Ainda há quem acredite que o ditador não se suicidou, mas veio para a América Latina. Isso pode ser visto como sinal de carência intelectual – basta ler as conclusões de Langer – ou, até, de carência afetiva. O que a psicanálise explica é que por traz de uma manifestação de vontade há sempre desejos muito profundos.

Walter C. Langer. A mente de Adolf Hitler: o relatório secreto que investigou a psique do líder da Alemanha Nazista. Trad. de Carlos Szlak. Rio de Janeiro: Leya, 2018.

 

 

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


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