São Paulo I: Maranhão lia Quintana

São Paulo é uma das minhas cidades preferidas para visitar. Gosto da Avenida Paulista, da região da Sé e do centro histórico; gosto do MASP, do Brás e da USP; gosto dos restaurantes, das músicas e dos museus. Mas, o que não gosto é de ver a quantidade exponencial de pessoas em situação de rua: na Sé, na Paulista, por toda a cidade universal.
Este texto não possui formato de palmatória, mas é apenas para manifestar o meu mal-estar por ver os meus semelhantes em situação de privação da dignidade. Muitos deles lutam pela dignidade, ainda que em uma condição terrível, mas mantê-la é uma tarefa impossível.
Andando pela Paulista, comprei uma pequena tela do MASP, representado por Shidon Soares, um artista de rua, e, na sequência, três livros. Quanto aos livros, estavam na banca de um senhor de cerca de sessenta anos chamado Maranhão. Junto à barraca de Maranhão estava um cachorro de quinze anos de nome homônimo. O senhor, originário de nordeste, lia um livro de Mario Quintana, e, quando comprei uma obra de Pablo Neruda, ele quis me presentear com outras obras, inclusive com que a que ele lia. Não aceitei. Mas, ele fez questão de me dar um presente, a leitura de um poema de Quintana que havia lhe "explodido a mente":
“A rua dos Cataventos
XVII
Da primeira vez em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da Noite! asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!”
O MASP por Shidon
Tão logo paguei pelos livros, Maranhão falou:
- Fiscalização. Fiscalização.
Eram os agentes da prefeitura de São Paulo recolhendo lonas, papelões e barracas de quem estivesse na calçada da famosa avenida.
- Aqui vocês não podem ficar. Aqui não!
Assim que eu me afastei de Maranhão, ele e o seu fiel animalzinho saíram da Paulista.
Mario Quintana. 80 anos de poesia. São Paulo: Globo, 2008.

