Você é mãe?

O que é ser mãe? Quando e como é que alguém se torna mãe? A partir de que momento e de que forma se considera que uma mãe tem ou perde um filho? É fácil ser mãe? E se não for?
Vez ou outra, perguntam-me se sou mãe. Pode ser num cadastro ou numa conversa. É uma dúvida trivial, mas houve momentos em que esse assunto era delicado, como uma agulha que estoura um balão.
Esse desejo parecia um destino certo, natural e simples. Apenas mais uma história comum, sem qualquer intercorrência — se é que isso existe.
Assim, houve um tempo em que idealizei a maternidade como parte do roteiro esperado da vida. Engravidei. Trata-se de uma história curta e longa ao mesmo tempo. Antes de prosseguir, porém, farei uma pausa para narrar o encontro com a pessoa que me fez a pergunta que dá título a este texto.
A mãe parecia aflita, alarmada com algo que, para ela, era inadmissível: suspeitava que a filha fosse homossexual. Contudo, por alguma razão, não conversavam sobre o assunto. Por isso, pediu-me que a ajudasse a descobrir a orientação sexual da filha.
Diante da proposta, quis saber o que aconteceria a seguir: “E se ela for?”. Ela respondeu que não poderia ser e apresentou motivo após motivo, como tijolos empilhados na construção de um muro intransponível para aquela (im)possibilidade.
Para deixar claro seu descontentamento com a minha pergunta, “acusou-me” de tratar a todos com respeito. Considerei aquilo um elogio.
Por fim, perguntou: “Você é mãe?”. Sem a intenção de aprofundar o assunto, apenas respondi que não. Contudo, a gravidez e a perda gestacional ainda eram recentes. Era a primeira vez que faziam essa pergunta desde então.
Naquele momento, a pergunta ecoou. Lembrei-me das semanas em que estive grávida. A gravidez foi marcada por transformações delicadas e abruptas.
A perda gestacional foi difícil de enfrentar, mas não foi só isso. No mesmo dia em que foi confirmada, soube da suspeita de uma complicação rara relacionada ao desenvolvimento da placenta. Se fosse esse o caso, existiria a possibilidade de que aquele tecido evoluísse para uma forma de câncer.
Assim, descobri a fragilidade e a força da vida. Foram necessários tempo e acompanhamento. Por fim, a suspeita mais grave não se confirmou, e finalmente pude descansar.
Permita-me outra pausa: se possível, volte ao primeiro parágrafo e releia as perguntas. Reflita. Acrescente outras. E outras.
Perguntas são trilhas. Por meio delas, somos capazes de (nos) mover.
Continuemos.
Naquela época, em 2018, conheci a história de Tahlequah, a orca que carregou seu filhote morto por 17 dias. Nesse período, ela percorreu cerca de 1,6 mil quilômetros. A jornada pode ser interpretada como uma demonstração de amor e luto, até que, por fim, ela seguiu sozinha.
Com Tahlequah, aprendi que é preciso respeitar o tempo, sentir e continuar. O luto é uma travessia, tal como a vida. No meu caso, a despedida era das idealizações de um futuro que não teria aquela presença.
Foi então que percebi: durante algumas semanas, fui mãe. Não houve nascimento. Houve amor. Um amor transformador. O amor transforma a dor. Esse amor criou raízes em mim e, de tempos em tempos, floresce.
Ao compreender o significado disso, dispus-me a imaginar: e se eu tivesse um filho ou uma filha homossexual? Como seria? Tentei imaginar um rosto, uma voz, um perfume. Desejei que não tivesse medo de falar comigo. Sem muros. Apenas tempo e acompanhamento: estar junto.
A todos os que leram, desejo vida, amor e florescimento.

