Aviamentos: entre linhas e ausências

A costura é uma técnica antiga. Em termos simples, consiste em unir tecidos ou outros materiais com linha e agulha. Permite confeccionar, transformar e reparar peças. Mas também atravessa dimensões culturais, sociais e até políticas. Pode ser forma (e meio) de expressão, de identidade, de arte, de sobrevivência.
Meu conhecimento sobre a costura é ínfimo, confesso. Ainda assim, às vezes me atrevo a fazer alinhavos e pequenos reparos. Considero esse saber útil e importante: ser capaz de consertar, remendar, ajustar, customizar.
Foi por isso que, um dia desses, entrei em uma loja de aviamentos. Um belo antro de linhas, botões, enfeites — um refúgio de cores, brilhos e texturas. Ali, porém, o silêncio pairava. Ao fundo, sozinha, havia uma mulher. Parecia absorta, tão concentrada ou distante que demorou a notar minha presença.
Atendeu-me com cordialidade. Pedi elásticos e algum barbante ou fita para alça. Ela pegou os elásticos um a um, mostrando-me vagarosamente. Depois, fomos procurar o segundo item. Após a escolha, começou a enrolar os elásticos com tanto cuidado que, ao chegar em casa, senti certo desgosto em desfazer seu trabalho.
Enquanto finalizávamos a compra, disse quase em sussurro: “Não sou boa vendedora!”. Discordei. Perguntei por que falava aquilo. Disse que bom mesmo era o filho; que, se ele estivesse ali, teria ideias melhores. Olhou ao redor, como quem procura algo que já não está. Então completou: “Meu filho faleceu há 47 dias”.
Era uma mãe contando o tempo de uma ausência desmedida.
Ela voltou a olhar a loja. Tudo, afirmava, era para ele. Falou do filho como alguém sublime. Ao lembrar que se desdobrava para lhe dar tudo de que ele precisava, chorou. Pediu desculpas. Eu disse que podia falar, se quisesse. Estava pronta para ouvir.
Contou que era empregada doméstica e que gostava muito do trabalho. Depois do nascimento dos filhos, deixou o emprego e decidiu vender para ficar mais perto das crianças, que criou sozinha. Como quem antecipa o epílogo, afirmou: “Essa é a minha história!”.
Explicou como abriu a loja — episódios que narram atos de coragem. Reafirmou: tudo aquilo era para ele. Olhei ao redor. Desta vez, vi materializações de amor, de resistência e de trabalho. Precisei contradizê-la: “A senhora diz que não é boa vendedora? Tornou-se uma para ficar perto dos seus filhos. É boa vendedora. É boa mãe”. Ela não discordou.
Disse que estava afastada da loja e que precisou voltar. Agora estuda para aprender a administrar melhor. Lembrou erros, preocupações excessivas — sobretudo com estoque e dinheiro. E então ponderou que, às vezes, preocupamo-nos demais com isso — algo que, após a partida do filho, lhe pareceu perder a importância.
Chorei com ela enquanto a escutava. Como não? Nos abraçamos. Dissemos nossos nomes. Despedimo-nos. Ela me agradeceu por ouvi-la; eu, por tê-la escutado. Ao sair da loja, eu já não era a mesma.
Percebi, então, que, quando alguém querido morre, abre-se um rasgo.
Pensando nisso, fui buscar a etimologia das palavras. Reparar, do latim reparare, significa “restaurar”, “preparar de novo” e “começar outra vez”. Aviamento, por sua vez, vem de aviar, ligado a via — caminho — e remete ao ato de “preparar para o caminho”, “aparelhar” e “dar seguimento”.
Talvez seja isso.
Diante das rupturas, seguimos tentando reparar. E, com os aviamentos que temos, vamos nos preparando, como podemos, para continuar o caminho.

