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A arte de salvar o minuto


Por: Alessandra Batista de Godoi
Data: 02/03/2026
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O título foi inspirado no texto “Dançar sobre os escombros”, de Matilde Campilho. Por meio deste, reconheci como a arte pode nos afetar profundamente e o quanto ela é transformadora. Eis a união entre delicadeza e força.

A arte me cativa desde que me conheço por gente. Na infância, com acesso limitado a tantas coisas, a escola tornou-se lugar privilegiado para aprender, observar e experienciar diferentes manifestações artísticas. Ao perceber cores, sons e palavras, eu aprendia e sentia.

Pintura, música, literatura, poesia, cinema, fotografia, escultura, dança, teatro… Que beleza!

Tive duas professoras de arte cujos interesses e critérios eram distintos, quiçá opostos, na maneira como demonstravam valor aos conhecimentos, criações e pessoas.

A primeira valorizava nossas obras e incentivava a melhoria, demonstrando que compreendia nosso processo. Sobre desenhos e pinturas, por exemplo, ensinava diferentes maneiras de perceber e representar as imagens, sem jamais desmerecer o que fazíamos.

A segunda media as margens com régua: um centímetro exato em cada canto da folha. Linhas precisas, ângulos impecáveis. Antes de olhar o desenho, avaliava a moldura.

Um dia, pediu que desenhássemos paisagens no quadro-negro. Fizemos montanhas triangulares, árvores redondas e verdes, casas com chaminés e lagos azuis. Ela criticou, dizendo que aquilo não representava nossa realidade, e apagou tudo.

Há padrões que aprendemos e repetimos sem perceber. Talvez a questão fosse realmente importante, mas a abordagem constrangia e confundia. Por algum tempo, passei a acreditar que arte era sinônimo de perfeição. Perdi o foco.

No ano seguinte, a primeira professora voltou e me ajudou a recuperar o encanto pela criação e pela expressão artística.

Depois do Ensino Médio, essa prática se distanciou do meu cotidiano, pois a vida adulta costuma ser apressada demais. Só muito tempo depois, já no final do doutorado, senti a necessidade de retomar e comecei a buscar a arte em suas variadas manifestações.

Esse processo salvou minutos de dias apressados. Uma pausa para a fotografia. Escutar a declamação de uma poesia. Ouvir, cantar e dançar uma música. Um desenho feito no espaço vazio da agenda. Pequenos gestos, duradouros. A arte torna a vida mais colorida, mais ritmada.

Recentemente, pintei o quintal da minha infância: a casinha de madeira no sítio, as mangueiras, as goiabeiras e outras árvores. Enquanto misturava tintas, misturava também lembranças — e as registrava.

Quando levei a tela para emoldurar, a mulher que me atendeu perguntou o que era aquele lugar. Contei. Ela sorriu e começou a falar do próprio quintal de infância — das árvores, dos animais, das dificuldades, das alegrias. Ao apreciar e ressignificar minha pintura, compartilhou comigo a alegria que sentia. Foi um instante belo, intenso e inesquecível.

Penso no que teria acontecido se me tivesse aprisionado às margens e às imperfeições. Provavelmente, eu não teria essa história para contar. Tive a sorte de encontrar uma professora-artista que me ensinou a transpor limites. E sigo buscando. Isso tem um valor incalculável, assim como os minutos que salvei aqui e acolá. 

Dançar sobre os escombros

A gente é construção
e não adianta fingir.
A gente está aqui neste lugar lindo,
com pessoas lindas, incríveis,
mas o mundo está todo arrebentado.
Aqui, na Europa, na Síria,
nos nossos quartos,
está tudo difícil (...)
A poesia, a música, uma pintura
não salvam o mundo.
Mas salvam o minuto.
Isso é suficiente.
A gente está aqui
para dançar um pouquinho
sobre os escombros.
Não deixar que a poeira
dê alergia nos olhos.
Cada um faz como pode.
O cirurgião vai tentar salvar
todas as vidas que puder.
A gente vai tentando salvar os segundinhos
- da minha vida, da vida
de todos meus amigos
e de alguém que lê uma estrofe.
E já é bom.

Fonte: CAMPILHO, Matilde. A poesia não salva o mundo, mas salva o minuto. In: Ípsilon, Isabel Coutinho, Paraty, 2018.

 

 

Alessandra Batista de Godoi


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