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Sobre vivência


Por: Alessandra Batista de Godoi
Data: 01/12/2025
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 Vez ou outra, encontro-me em situações em que tenho a sorte de encontrar pessoas simpáticas que falam com entusiasmo sobre assuntos que lhes são caros. É gratificante ouvir histórias contadas por quem as viveu ou criou. A sensação é parecida com a de ler um livro, mas narrado pelo protagonista.

Um dia desses, conheci um sobrevivente de guerra. Reconheci nele um testemunho histórico, cujas memórias (acredito eu) devem ser preservadas. Pondero que as palavras dele passaram pelo crivo da minha memória e foram ajeitadas no espaço de um (con)texto. Mesmo assim, espero que lhe sirvam bem!

Tive o prazer de encontrá-lo na feira, numa barraca com louças e outros objetos decorados artesanalmente em motivos ucranianos. Enquanto olhava aquela arte tão bonita, iniciamos uma conversa longa e tão boa que nem percebi o passar do tempo.

Ele é alto, de pele clara e olhos brilhantes. Um polonês, de 85 anos, casado com uma ucraniana — a artesã. Chegou ao Brasil com 6 anos. Isso ocorreu porque nasceu em 1940, em meio a um tempo de guerra. Em 1939, a Polônia foi invadida, dividida e ocupada pela Alemanha. Assim, começou a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945.

Findada a guerra, com o país devastado, muitas pessoas iam reconstruir as suas vidas em outros países, cujas fronteiras eram acessíveis para recebê-los. Por isso, morou com a família na Alemanha, onde trabalhavam em fazendas. A retribuição pelo trabalho era moradia e alimentação, apenas. Em busca de melhores condições, embarcaram rumo ao Brasil. Aqui, recomeçaram e prosseguiram.

Ele viveu a maior parte da sua vida no Paraná, onde conheceu sua esposa, de 83 anos. São casados há mais de seis décadas. Coincidências da vida: ambos vieram no mesmo navio e apaixonaram-se anos depois. Isso foi tudo o que me disse sobre o trajeto de lá para cá. Essa parte da história foi como uma surpresa do enredo. Pude imaginar a viagem como um momento fadado ao encantamento, como é a vida. Esqueci-me de pensar sobre possíveis dificuldades e medos.

Depois, falou-me da profissão, do modo como construíram um patrimônio. Falou dos bens com orgulho, mas com certa desimportância, como quem se despediu disso. Nesse momento, fez menção à finitude da vida com a tranquilidade de quem sabe viver. Falou-me que vive bem, come bem, gosta de pescar e tem uma vida tranquila. Ao falar dos seus filhos, netos e bisnetos, descreveu alguns episódios com serenidade e deixou transparecer o quão são importantes. 

Com o nascimento de um neto, abrigou um cachorrinho da família que, há 7 anos, reside com o casal. Escapavam-lhe sorrisos ao falar disso. Fez questão de dizer como o companheiro canino gosta de ficar na cadeira enquanto se alimentam. Um dia, quis tirá-lo antes da hora, motivo pelo qual foi mordido e precisou ir ao hospital. Mostrou-me a mão com ferimentos recém-cicatrizados e admitiu haver errado, pois não deveria incomodar o cachorro na cadeira… Concordei. 

A esposa dele, pelo que compreendi, também veio ao Brasil pelos mesmos motivos e em circunstâncias parecidas. A Ucrânia também sofreu muitas perdas. Porém, as adversidades não cessaram. Aqui, ela e os irmãos perderam os pais em uma idade precoce. Cuidaram-se. Sobreviveram.

Ao mostrar os produtos, explicou-me como são feitos. Descreveu o trabalho dela como algo perfeito, o que não pude contestar. Há mais de 10 anos, ela planeja parar e, enquanto isso, ensina outra mulher da família. Elogiou o artesanato como algo importante de ser aprendido e feito. Penso que ele esteja certo nisso também.

Por algum tempo, conversamos sobre a pêssanka, um ovo de ganso decorado à mão. Trata-se de um artesanato tradicional da Ucrânia. Enquanto mostrava, foi explicando como conseguem os ovos, como são limpos e coloridos… Ao perguntar-lhe sobre o significado (simbolismo), respondeu: “É vida!”.

Pelo que compreendi, o casal não voltou aos seus países de origem. Argumentou que a dor nos joelhos o atrapalhava de ir. Tive a impressão de que não era apenas isso, mas não insistimos no assunto.

Ao sair de lá, trouxe comigo não apenas artesanatos, mas também memórias e aprendizados. Conheci um sobrevivente… Porém, enquanto escrevia esse texto, notei que não houve menção a bombardeios, metralhadoras, trincheiras, violência… Pouco disse sobre a guerra, muito falou da vida. O único ferimento que me mostrou foi a mordida do cachorro, a quem perdoou. Ao compreender o que a narrativa aborda, mudei o título que havia planejado: inseri um espaço na palavra “sobrevivência”.

 

 

 

Alessandra Batista de Godoi


Anuncie com Jornal Noroeste
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