Valor Sentimental

Estamos às vésperas da entrega do Oscar 2026, bem por isso essa é a melhor hora para comentar sobre o filme que é uma verdadeira pedra no sapato do nosso representante brasileiro, O Agente Secreto, na cerimônia de domingo. Sobre o filme norueguês Valor Sentimental, que tem chamado muito a atenção ultimamente e que está novamente em cartaz no cinema, você vai ficar muito bem informado esta semana na Coluna Sétima Arte.
Para começar, é importante estabelecer algumas coisas sobre a casa da família Borg, que é um elemento central no filme. Algumas casas guardam móveis antigos. Outras guardam lembranças. A casa da família Borg, em Valor Sentimental, novo filme do diretor Joachim Trier, guarda algo ainda mais difícil de organizar: silêncio. Não aquele silêncio confortável de quem vive em paz, mas o silêncio espesso de coisas que nunca foram ditas, ou pior, de coisas que foram ditas e deixaram marcas que não desaparecem com o tempo.
Logo nos primeiros minutos, Trier deixa claro que essa casa não será apenas cenário. Ela é quase um personagem. Os corredores parecem observar, as paredes carregam cicatrizes e os cômodos parecem lembrar de cada conversa atravessada que aconteceu ali. É como se o diretor nos dissesse: antes de entendermos essa família, precisamos entender o espaço onde ela se formou, ou se desfez.
No centro dessa história está Nora, interpretada por Renate Reinsve, uma atriz talentosa que, ironicamente, parece ter perdido a capacidade de se sentir segura no palco. A primeira vez que a vemos adulta, ela está nos bastidores de uma peça tentando controlar o próprio corpo antes de entrar em cena. A respiração falha, o nervosismo toma conta e, por um instante, parece que ela não conseguirá atravessar aquela porta. É um começo poderoso, porque o filme já sugere que atuar, para Nora, não é apenas um trabalho, é também uma maneira de sobreviver.
Esse conflito ganha outra camada quando reaparece Gustav Borg, o pai ausente, interpretado com precisão cirúrgica pelo excelente ator Stellan Skarsgård. Gustav é um cineasta respeitado, mas também um homem que passou boa parte da vida priorizando sua arte em detrimento da família. Depois da morte da ex-mulher, ele retorna à casa e surge com uma proposta curiosa, ele quer filmar ali seu novo longa-metragem e quer Nora como protagonista. A recusa dela é imediata e, claro, compreensível.
A impressão que o filme transpasse é que para ela aceitar o papel significaria algo maior do que simplesmente atuar. Significaria permitir que o pai transformasse em cinema parte da dor que ele próprio ajudou a criar. Há algo profundamente desconfortável nessa ideia de transformar traumas familiares em narrativa artística. Trier percebe isso e constrói o filme inteiro nesse território delicado, onde arte e vida parecem disputar o mesmo espaço.
Quando Nora recusa o convite, Gustav faz o que sempre fez, ele segue em frente sem realmente lidar com o problema. Ele escala uma estrela internacional para o papel, Rachel Kemp, vivida por Elle Fanning. A escolha funciona muito bem dentro da história, porque a presença da atriz estrangeira cria um contraste interessante com o ambiente íntimo e carregado daquela família. Rachel observa tudo de fora, quase como uma visitante em um território emocional que ela não entende completamente.
Entre essas tensões aparece Agnes, a irmã mais nova, interpretada por Inga Ibsdotter Lilleaas. Ela é, de certo modo, o elo que ainda tenta manter alguma estabilidade entre todos. Mas Trier é inteligente o suficiente para não transformá-la na “irmã equilibrada” que resolve tudo. Agnes também carrega suas próprias marcas, a diferença é que ela apenas aprendeu a conviver com elas de forma menos explosiva.
O que torna Valor Sentimental particularmente interessante é a forma como Trier mistura os planos da realidade e da ficção. Muitas vezes, uma cena começa como se fosse um momento íntimo da vida dos personagens e, de repente, percebemos que estamos dentro de um ensaio, de um teste de atuação ou de um trecho de filme. Essa transição entre vida e representação não é apenas um recurso estilístico. Ela reforça a ideia de que, para essa família, arte sempre foi uma maneira de lidar com aquilo que era difícil demais de enfrentar diretamente.
Nesse sentido, Gustav é talvez o personagem mais complexo do filme. Seria fácil retratá-lo como um pai cruel ou egoísta, mas Trier prefere algo mais interessante. Gustav não é exatamente um vilão. Ele é aquele tipo de artista que consegue transformar tudo, até as próprias falhas, em matéria-prima criativa. O problema é que, quando a vida vira material artístico, as pessoas ao redor frequentemente se tornam personagens involuntários e isso deixa cicatrizes.
Visualmente, o filme também chama atenção pela maneira como a casa é filmada. A fotografia explora corredores estreitos, portas entreabertas e cantos que parecem esconder memórias. Há momentos em que os personagens aparecem isolados dentro do quadro, quase como se estivessem perdidos dentro da própria história familiar. É um trabalho de mise-en-scène muito elegante, daqueles que parecem discretos à primeira vista, mas revelam um cuidado enorme com cada detalhe.
Ainda sobre o elenco, as atuações ajudam a sustentar essa atmosfera. Renate Reinsve constrói uma Nora cheia de tensão interna, alguém que parece sempre a poucos segundos de explodir. Stellan Skarsgård, por sua vez, compõe um pai que mistura charme, culpa e uma certa incapacidade crônica de pedir desculpas de verdade. Já Lilleaas oferece à Agnes uma serenidade que esconde uma fadiga emocional enorme.
Talvez o maior mérito de Trier seja evitar soluções fáceis, bem por isso, Valor Sentimental não é um filme sobre reconciliação milagrosa. É um filme sobre reconhecer danos. Sobre perceber que algumas relações nunca voltam ao que eram, mas ainda assim podem encontrar uma nova forma de existir.
Por que ver esse filme? Primeiro, porque ele é um grande concorrente no Oscar de Melhor Filme Internacional e pode tirar a estatueta do Brasil. Segundo, porque no final das contas, o que permanece em Valor Sentimental não é exatamente uma família restaurada, mas sim, aquela casa. Ainda de pé, ainda cheia de histórias, ainda observando tudo. E talvez seja justamente isso que torna o filme tão bonito, essa sensação de que memórias não desaparecem. Elas continuam morando nos lugares e dentro das pessoas, mesmo quando elas tentam seguir em frente. Boa sessão!

