O estado apóstata da humanidade sem Cristo

Por Seminarista Fernando Razente
Romanos 3.12 (ARA): “todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.”
Nos textos anteriores desta série expositiva de Romanos estivemos meditando sobre como Paulo defende a doutrina da universalidade do pecado, o que em Teologia se denomina Depravação Universal da humanidade. Temos que nos lembrar que Paulo havia demonstrado nos capítulos anteriores de Romanos (1 e 2) que tanto judeus como os gentios são indesculpáveis perante Deus. Os judeus são indesculpáveis por não viverem de acordo com a Revelação Especial de Deus nas Escrituras. Os gentios são indesculpáveis “pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador.” (Rm 1.25).
Finalmente, no verso 9 do capítulo 3, a conclusão paulina à luz disso é que todos, igualmente, estão dominados pelo poder do pecado. E, para dar uma substanciação adicional dessa acusação, Paulo introduz uma cadeia de passagens do Antigo Testamento – na versão da Septuaginta (LXX) – que comprovam sua declaração. Essa cadeia vai do verso 10 ao 18 do capítulo 3. O verso que iremos analisar hoje – v. 12 – faz parte dessa cadeia de citações.
É importante esclarecer que as citações que Paulo faz de textos de Salmos nesse versículo não são, como observa Hendriksen (2011, p. 156), ad verbum (literais), mas ad sensum (segundo o significado). Por isso, pequenas modificações são percebidas na transcrição que Paulo faz do Salmo 14.3 e Salmo 53.3 nessa passagem de Romanos 3.12. Nos Salmos lemos: “Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.” (Sl 14.3; Sl 53.3) Já em Romanos 3.12, lemos: “todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.”
A mudança se dá no “juntamente se corromperam” dos Salmos para “à uma se fizeram inúteis” de Romanos, o que não altera em nada o sentido unívoco das duas expressões.
Dito isso, vamos agora meditar no verso 12 parte por parte e extrair dele importantes doutrinas e aplicações. A citação começa com a declaração de que “todos se extraviaram”. Aqui, toda a raça humana é qualificada como extraviados do conhecimento e da comunhão com Deus. Paulo não está descrevendo o estado desta ou daquela raça ou classe em particular de pessoas, mas os seres humanos em geral. O termo extraviaram também pode ser traduzido como desviaram-se ou ainda “pegaram outro rumo”, isto é, decidiram andar num caminho que não o proposto por Deus. Essa é a realidade espiritual da humanidade sem Cristo. Estão todos desviados da vontade de Deus ou, como alguns preferem, são todos apóstatas de Deus!
A citação prossegue, e lemos que “à uma se fizeram inúteis”. Ou seja, a humanidade, por rejeitar a vontade de Deus e se desviar do rumo proposto pelo Senhor, se tornou – de uma só vez e por suas próprias responsabilidades – inútil ou simplesmente “sem valor”. Obviamente, isso pressupõe que todos os seres humanos foram criados originalmente com propósito e valor.
No entanto, quando o pecado domina o ser humano ele redireciona a vida para qualquer outra finalidade fútil, inútil e sem valor. Os seres humanos perdem completamente o valor de suas vidas devido às astúcias de seus pecados degradantes. Isso evoca a passagem de Eclesiastes 7.29: “Eis o que tão somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias.”
Na sequência, o texto diz que “não há quem faça o bem”. Pelo fato de terem se afastado do caminho proposto por Deus e se tornado inúteis, toda humanidade também se tornou incapaz de fazer algo espiritualmente útil e agradável a Deus, pois a palavra “bem” (xr?stót?s) também pode ser traduzida como “útil” no sentido espiritual. Paulo parece fazer um jogo de palavras, do tipo: os inúteis não podem fazer coisas úteis.
Ou seja, na presente condição natural da humanidade sem Cristo, de pessoas perdidas e desprovidas de valor, não há ninguém capaz de fazer algo que agrade a Deus ou de produzir algo que seja de algum valor espiritual. Nem mesmo os seres humanos mais moralistas deste mundo. Afinal, como Isaías defende, até as obras de justiça dos pecadores são consideradas como trapos de imundícia (Isaías 64.6) perante Deus.
Portanto, até aqui temos o seguinte quadro: a humanidade está perdida (extraviada), moralmente desvalorizada (inútil) e espiritualmente incapaz (não faz o bem). Em face disso, alguém poderia perguntar: não sobrou nem mesmo um capaz de fazer o bem, buscar a Deus e realizar obras espiritualmente úteis? E a resposta de Paulo – apoiado em Salmos – é: “não há nem um sequer.”
Com essas palavras, Paulo impede a possibilidade de crença na impecabilidade de qualquer ser humano como uma exceção, como fazem os católicos romanos em relação ao dogma da Imaculada Conceição de Maria.[1] Nem Maria, nem o próprio Paulo, nem qualquer outro ser humano é capaz de fazer bens espirituais de forma natural sem a graça regeneradora de Deus em Cristo Jesus.
Devemos nos lembrar que para andar nos caminhos de Deus, viver uma vida digna e de valor e realizar qualquer bem espiritual, não só Maria e Paulo, mas todos os crentes em Cristo precisaram ser primeiramente regenerados pelo poder do Espírito Santo.
E quanto às doutrinas? À luz de Romanos 3.12 (e também de Salmos 14 e 53) quais doutrinas a Escrituras estabelece?
Primeiro, que a condição natural da humanidade sem Cristo é de perdição. Nenhuma religião ou sistema filosófico e/ou ético à parte da Revelação de Deus em Cristo Jesus pode salvar o ser humano. Todos estão desviados da vontade de Deus, e precisam do evangelho da graça.
Segundo, que os seres humanos foram criados originalmente bons, à imagem e semelhança do Criador, portadores de propósito e valor definidos, ancorados na glória e no caráter do próprio Deus. Deus não criou os seres humanos nessa presente situação. Na verdade, a condição atual da humanidade é fruto de rebelião e da apostasia consciente.
Terceiro, as práticas moralistas não podem ser equiparadas com o “bem” a que Paulo se refere como contra-argumento. Embora muitas pessoas sejam capazes de praticar boas obras ou, como se diz em Teologia, “virtudes civis”, tais virtudes estão manchadas pelo pecado e não possuem nenhum valor espiritual para redimir os pecadores de sua condição de perdição espiritual.
Quarto, a impossibilidade de uma exceção não se aplica a pessoa de Jesus Cristo, que sendo Deus-Homem, foi preservado do pecado original pelo poder do Espírito Santo por geração extraordinária (nascimento virginal). Contudo, todos os demais – inclusive sua devota mãe – nascem em pecado, à semelhança de Davi, e necessitam de redenção e regeneração pela graça.
Querido(a) leitor(a), penso que esta é uma oportunidade importante para que você medite primeiro, na sua condição. Se você ainda não se entregou a Cristo pela fé, sua condição não é boa, como vemos pelo v.12. Deus descreve a humanidade sem Cristo vivendo num um estado de completa falência espiritual, perdição e incapacidade moral. Seu estado, querido(a) leitor(a) é deplorável. Porém, ao reconhecer isso em humildade e se voltar a Jesus em busca de Redenção com fé singela, ele é capaz de lhe proporcionar a regeneração e lhe transformar numa nova criatura (2 Cor 5.17), na qual o Senhor não só produz a capacidade de desejar o bem, mas também de efetuar (Filipenses 2.13).
Todavia, se você já entregou sua vida à Jesus, essa também é uma oportunidade para que você medite na condição da humanidade. Como você percebeu, o retrato é terrível. A humanidade, de fato e sem exageros, está perdida longe de Jesus Cristo, o Salvador. E o que você fará com essa informação? Ficará sentado com mais uma informação teológica?
Lembre-se que um dos propósitos de Paulo ao escrever essa epístola aos Romanos era conquistar apoio para o seu futuro projeto missionário de pregar o evangelho na Espanha. Ele queria mostrar à igreja de Roma que a evangelização era necessária e urgente, pois a condição da humanidade era (e ainda é) desesperadora e a única coisa que pode salvá-los é o evangelho de Deus sendo pregado. Portanto, que ao considerar a condição da humanidade neste versículo, você também seja estimulado a evangelização, a compartilhar o evangelho da salvação a todos que você conhece!
Que Deus o abençoe.
[1]A Imaculada Conceição é um dogma da Igreja Católica que afirma que a Virgem Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção no ventre de sua mãe, Ana. O dogma foi proclamado pelo Papa Pio IX em 1854.
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
