Descarte irregular de seringas preocupa Cooperativa de Catadores e coloca trabalhadores em risco
Risco invisível no lixo reciclável expõe cooperados a acidentes e reforça a urgência de conscientização sobre o descarte correto de materiais perfurocortantes.
Um problema grave e crescente tem preocupado os trabalhadores da Cocamare: o descarte incorreto de seringas em meio ao lixo reciclável. A situação já resultou em acidentes de perfuração entre os cooperados e acendeu um alerta sobre os riscos à saúde enfrentados diariamente por quem atua na triagem dos resíduos.
Atualmente com 24 cooperados, a Cocamare desempenha um papel essencial na cadeia da coleta seletiva do município, que é considerada um exemplo positivo por atender todos os bairros com bom nível de separação. Ainda assim, o descarte inadequado de materiais perfurocortantes tem colocado em xeque a segurança dos trabalhadores.
Segundo o coordenador da cooperativa, Ronan Henrique Suriano Alves, somente neste ano já foram registrados ao menos quatro acidentes com perfuração por agulhas. “Toda vez que isso acontece, é um transtorno grande. O cooperado precisa fazer diversos exames e iniciar um tratamento preventivo com um coquetel forte, o mesmo utilizado para HIV. Isso tem preocupado bastante”, relatou.
Ronan também observa que houve aumento no aparecimento dessas seringas nos últimos meses, possivelmente associado ao crescimento do uso de medicamentos aplicáveis em casa. “A gente percebeu esse aumento após essa onda de medicamentos, inclusive para emagrecimento. Isso acendeu um alerta para nós e reforça a necessidade de conscientização da população”, destacou.
O presidente da cooperativa, Miguel Bispo dos Santos, reforça que o problema vai além do risco imediato. “Quando ocorre uma perfuração, o trabalhador precisa ser encaminhado para atendimento em Maringá, onde realiza exames e retira a medicação no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). É um tratamento pesado, que causa reações como enjoo e dores no corpo”, explicou.
Ele alerta ainda que o risco atinge toda a cadeia do processo dentro da cooperativa. “Desde quem coleta, passando por quem abre as sacolas, até quem faz a separação e opera a prensa, todos estão expostos. Muitas vezes, a seringa vem sem proteção, e o contato é inevitável durante a triagem manual”, afirmou.
A orientação correta, segundo os responsáveis pela cooperativa, é que seringas usadas sejam descartadas em unidades básicas de saúde (UBSs), onde recebem o destino adequado. No entanto, a falta de informação ou de cuidado tem feito com que esse material seja colocado de forma indevida junto aos recicláveis.
Apesar dos desafios, a Cocamare segue cumprindo sua missão socioambiental. “Cerca de 90% de tudo que descartamos pode ser reciclado. Nosso trabalho vai além da renda: é uma questão ambiental. Se pararmos, haverá impacto direto na vida do planeta”, ressaltou Bispo.

A cooperativa atua em parceria com a Prefeitura de Nova Esperança, que realiza o recolhimento dos recicláveis e os encaminha diariamente para triagem. Além disso, a própria Cocamare contribui com a coleta por meio de seu caminhão. Ainda assim, uma parcela significativa dos materiais não chega até a cooperativa devido à atuação de catadores informais — estima-se que para cada cooperado, haja outro trabalhando de forma independente.
Diante do cenário, os trabalhadores pedem maior conscientização da população sobre o descarte correto de resíduos, especialmente os perfurocortantes, a fim de garantir a segurança de todos os envolvidos no processo e preservar os avanços já conquistados na coleta seletiva do município.

