Rainer Maria Rilke. “Cartas a um jovem poeta”

O livro de Rilke é um dos que mais li até hoje, seis vezes, sendo que só entre 2020 e 2021 o li três vezes. E por que esse meu gosto por essa obra? Porque, por meio de dez cartas a Franz Xaver Kappus, o grande poeta tocou em assuntos que considero essenciais, como a arte de escrever, o papel da crítica literária e jornalística, o valor da solidão e a relação entre o novo e a tristeza. Dito isso, dividirei esta resenha em cinco partes.
1 – A escrita
Rilke nos ensina que não precisamos nos importar em demasia com as críticas literárias. Claro que isso não implica uma licença para escrever bobagens, mas sim uma licença para não nos submetermos a parâmetros externos como se esses fossem os garantidores da nossa qualidade. Certa vez enviei um poema para uma revista literária de prestígio e a recusa veio por meio de palavras que jamais saberei o que significavam. Quem avaliou quis se sair tão por cima que não entendi nada. Precisava disso? Não, bastava uma simples recusa com uma simples justificativa. Mas, mais do que o meu exemplo, o que Rilke ensina é que a escrita é um ato profundo de si, isto é, quando alguém escreve, se meditou sobre o que colocou no papel, cada palavra traz em si o peso e a leveza de uma vida. Como é possível, no caso, desmerecer alguém? Não é possível, porém, daí a aceitá-lo para publicação é outra história...
O que é preciso para que alguém se torne escritor? A necessidade mais profunda de escrever. A vontade de estar acordado de madrugada só para escrever. Curiosamente, esta resenha foi escrita após a meia-noite de um domingo, especialmente em 03 de outubro de 2021. Se alguém disser “preciso escrever”, “não posso viver sem escrever”, acredite, escreva, e não será qualquer recusa de publicação que o fará desistir da vida de escritor.
2 – A solidão e a profundidade
Rilke nos ensina que quanto aos assuntos mais profundos da vida estamos sozinhos, e é preciso enfrentá-los com ações e palavras. Um livro que não se coloca a caminho do combate, por consequência, passa a ser de pouca serventia. Qual a graça de uma poesia sem contradições e sem colocar o leitor em xeque? Qual a graça de um romance sem drama? A questão é que a vida é cheia de temas e momentos profundos, nos quais teremos de enfrentar sozinhos, ainda que alguém esteja ao nosso lado. É preciso amar a solidão, pois com isso em vista, será possível saltos de qualidade, a pessoa passará a se conhecer melhor e, assim, a escrever com mais potência.
3 – “Me dá um livro?”
Rilke nos ensina como dizer “não” a quem nos pede um livro de nossa autoria. Isso pode parecer mesquinho, mas não é. Diz o poeta a Kappus:
Por fim, no que diz respeito a meus livros, adoraria lhe enviar todos os que poderiam trazer alguma alegria para o senhor. Mas sou muito pobre, e meus livros não me pertencem mais, desde que foram publicados. Eu mesmo não posso comprá-los e, como gostaria de fazer com frequência, dá-los para as pessoas que lhes demonstrariam afeição. (RILKE, 2013, p. 39).
Quando eu escrevo um livro, geralmente gasto uma grande quantia de dinheiro. “Entre médicos e imigrantes” e “Travessias”, por exemplo, me fizeram ir a Roraima e à Venezuela duas vezes, deixando meu dinheiro mundo afora, além de, para publicá-los, tive de pagar. Recuperei o que gastei? Não, pelo contrário, depois de lançá-los os dei para muita gente. Retorno em forma de comentários e resenhas? Quase nenhum. Ora, mas eu já não havia lido Rilke, sendo a primeira vez em 2012? Sim, mas não o ouvi...
Que mania mesquinha é a de pedir livros para os autores. Esse é o trabalho deles. Valorize-o! Compre-o!
4 – A solidão
O trabalho intelectual, no caso, quando a pessoa senta para sintetizar as ideias, é essencialmente uma atividade solitária. Ai de quem não gostar da solidão, não produzirá obras individuais. Ai de quem não cuidar da própria identidade, da própria peculiaridade, produzirá clichês e seus trabalhos serão mecânicos. Como eu gosto de pensar a escrita a partir da arte, gosto também de pensar arte enquanto algo único. Sou romântico? Pode ser. Sou alguém que valoriza a solidão? Certamente.
Pense, meu caro, no mundo que o senhor leva dentro de si, então dê a esse pensamento o nome que quiser; pode ser lembrança da própria infância ou anseio do próprio futuro – apenas preste ação no que surge a partir de dentro e eleve-o acima de tudo o que o senhor percebe em torno. (RILKE, 2013, p. 57).
5 – O novo e a tristeza
Rilke nos ensina que o novo anda lado a lado com a tristeza. Em um dos meus poemas, “debora uma cancao”, digo: “debora uma cancao/ nao e uma fossa nova/ mas vinicius em Ipanema/ e niteroi”. Não é difícil encontrar pessoas altamente criativas que passam ciclicamente por duras tristezas. Claro, ninguém aqui, nem Rilke e nem eu, desejamos a ninguém infelicidade, mas, isto sim desejamos, que a tristeza não seja vista como a vilã da alegria. Não, isso é infantilidade. A vida é o que é e, não raro, quando estamos incomodados é que agimos; quando estamos tristes é que nos reinventamos. Ai da arte sem a tristeza. Ai da arte sem a superação.
RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Trad. de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2013.

