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“Paris é uma festa”, de Ernest Hemingway


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 12/02/2026
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           O livro “Paris é uma festa” conta os anos em que Hemingway viveu na capital francesa, na década de 1920. É interessante saborear o misto de saudosismo e genealogia que o escritor faz, pois ele rememora o seu processo inicial de escrita e as suas amizades. Tanto um quanto outro aspecto são devidamente realçados, de modo que um se casa perfeitamente ao outro. A leitura desse livro é um passeio por Paris, e a sensação é a de que caminhamos lado a lado com Hemingway, bem como de seus amigos, Gertrude Stein, Ezra Pound e Scott Fitzgerald.

          Devo admitir que eu próprio, sabendo do que já ocorreu e do que ainda ocorre em Paris em matéria cultural, já tive o desejo de conhecê-la pessoalmente. Que estudante nunca ouviu falar do Louvre? Do Panteão? Da Sorbonne? Dos cafés? O fato é que em janeiro de 2018 eu realizei o meu sonho e a conheci, o que, por uma semana, foi intensamente vivida. Eu acordava às seis e dormia depois da meia-noite e andava o máximo que eu podia. E nisso fui das Catacumbas à Torre Eiffel, dos Inválidos à Igreja de Saint-Denis. Naqueles dias, aproveitei para escrever cerca de doze poemas do meu livro “Versos de Varsóvia”. Por um curto espaço de tempo, eu senti o que Hemingway sentia.

          Como acima foi destacado, “Paris é uma festa” não é só um livro de memórias, mas um trabalho que diz muito sobre o processo de escrita, e é nisso que me focarei. Assim, é preciso dizer, desde logo, que nesse livro não aparece o clichê das representações sobre escritores: eles amassando papéis e jogando-os no lixo, ou qualquer romantização com a escrita. Na verdade, o que há é a imagem de um escritor pobre submetido a uma severa disciplina, mas que, ao mesmo tempo, vive a vida para além das palavras.

          Sobre o método de escrita de Hemingway, algo valioso mesmo para os escritores mais experientes, ele é narrado de forma simples e bela em “Paris é uma festa”. Simples porque não há floreios para apresentá-lo, e belo porque há uma harmonia que combina com o modo de vida do autor. E que método é esse? Irei por parte, já que ele se divide.

          Primeira. A ponta do iceberg. Hemingway descobriu que não precisaria dizer tudo sobre determinado assunto. Ele poderia dar a entender para onde a história iria sem, contudo, dizê-la explicitamente. O leitor, a partir de suas experiências, que daria o tom à narrativa. Isso é interessante, pois cria um leitor ativo, onde autor e leitor se tornam cúmplices no processo de escrita.

 

Sentado ali no Lipp’s, comecei a pensar na primeira vez em que fui de novo capaz de escrever um conto após ter perdido tudo. Foi em Cortina d’Ampezzo, quando voltei para junto de Hadley, depois de ter interrompido a temporada de esqui de primavera para ir, por ordem do jornal, ao valor do Reno e ao Ruhr. Era um conto muito simples, intitulado Fora da Temporada, e eu omitira seu final lógico, que seria o suicídio do velho, por enforcamento. Fizera isso com base na minha nova teoria de que sempre se pode omitir qualquer coisa de um conto, desde que se saiba por que se omitiu e a parte omitida reforce a narrativa, fazendo com que os leitores sintam alguma coisa além daquilo que entenderam (HEMINGWAY, 2011, p. 89).

 

          Segunda. Escrever é algo longo. Nem sempre é possível começar e terminar uma ideia em um único dia. Como recomeçar o trabalho? Hemingway “(...) trabalhava até que tivesse alguma coisa acabada e parava quando sabia o que ia acontecer depois” (HEMINGWAY, 2011, p. 26). Esse passo a passo é literalmente um passo a passo, onde se sabe exatamente onde se chegará (ou tanto quanto é possível).

          Terceira. E quando há um bloqueio ou um simples e natural vazio de ideias? Hemingway a si mesmo dizia: “Não se aborreça. Você sempre escreveu antes e vai escrever agora. Tudo o que tem a fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreva a frase mais verdadeira que puder.” (HEMINGWAY, 2011, p. 26). Só quem nunca sentou para escrever que não teve nenhum vazio criativo. Eu próprio tenho épocas em que me questiono: “tornarei a escrever, ou tudo se esgotou?” De repente, até porque é preciso se alimentar de cultura para que a cultura brote, aparece algo que dá sentido. É preciso, portanto, certa fé ativa, pois as palavras, mais cedo ou mais tarde, renascerão a quem gosta de escrever. Hemingway também dizia sobre escrever “a frase mais verdadeira que puder”.

          O eruditismo é o oposto de algo verdadeiro, forte, pois ele é conhecimento pelo conhecimento, qualquer ideia por qualquer ideia. O verdadeiro de Hemingway está conectado com a vida. Não ao acaso o escritor escrevia sobre o que conhecia bem, como histórias de pescadores, de soldados e de toureiros.

          Outro aspecto, e este sou eu a acrescentar, o escritor deve se conhecer. Esse conhecimento passa pela esfera do corpo. Há momentos em que o escritor não está com disposição para escrever e será de pouca valia ele se forçar. O texto revela o ânimo do autor. Há escritores que escrevem em certas horas do dia e outros em momentos diversos, e está tudo bem. O corpo quer o que ele quer. É possível discipliná-lo? Sim, porém, forçá-lo é outra história.

          Quarta. Sorte e disciplina. Sorte significa que há dias que parecem que tudo vai bem e que as palavras simplesmente deslizam sobre o papel. E disciplina, porque não se pode contar com a sorte diária, ainda que esta também seja resultado da disciplina. Uma coisa não nega a outra, na verdade, uma completa a outra.

          Quinta. Escrever de modo simples e verdadeiro. O exemplo que o escritor se dá é o de Cézanne. Segundo Hemingway, a pintura do impressionista continha apenas o essencial, e este deve ser a meta de todo escritor, ou ao menos essa era a meta que ele se colocava. Quantos artigos e livros que possuem floreados que são, ao final, apenas flores artificiais?

          Pelo método acima se percebe que para alguém vir a ser um escritor é preciso “sorte e disciplina”, tendo na disciplina o elemento central. É claro que alguém pode ser disciplinado, escrever muito, mas ainda assim ser comum, sem graça, o que revela também o elemento “sorte”. E outro aspecto: não é possível romantizar o escritor, afinal, é um ofício exigente como tantos outros. Como alguém poderá ser marceneiro sem se exercitar nessa profissão constantemente? Como alguém poderá ser um grande mestre de xadrez sem um árduo trabalho?

          Em “Paris é uma festa”, Hemingway mostra as suas alegrias e angústias, e seus vários locais de trabalho, como os cafés. Ele escrevia em cafés e os tinha como locais próprios para a escrita. Admito que realmente é prazeroso esse tipo de ambiente, tanto para escrever quanto para conversar. Eu próprio já escrevi em cafés e a sensação foi boa, talvez por causa da representação que há entre escritores e cafés. Mas, o fato é que Hemingway escrevia em qualquer lugar e, no meu caso, eu só não consigo escrever em locais excessivamente barulhentos. Prefiro o silêncio, mas este é cada vez mais um ideal, e não uma realidade.

          A Paris vivida por Hemingway foi cercada de amigos famosos e em ascensão a estrelas. É o caso da convivência com Gertrude Stein, Ezra Pound e Scott Fitzgerald. Porém, e isso é importante e valioso, Hemingway os trata como amigos, e não como pessoas a receberem aplausos indiscriminadamente, seja antes, seja no momento da escrita do seu livro (feito na década de 1950). Em algumas biografias e autobiografias, o escritor retrata a amizade com pessoas famosas como meio de autopromoção, o que se torna uma tosca humildade. Com Hemingway não é assim, tanto que ele conta uma curiosa com “Scott”, em que os dois caminharam pelo Louvre olhando estátuas (não direi mais detalhes). O que tudo isso revela? Que o escritor é, sim, uma pessoa comum, seja ele um laureado pelo Nobel, caso de Hemingway, ou não.

          “Paris é uma festa” é um livro precioso para quem deseja compreender a obra de Hemingway, seus anos iniciais de escrita e seu percurso criativo como um todo, e serve de precioso manual para escritores aprenderem a escrever de modo simples e verdadeiro.

 

 

Ernest Hemingway. Paris é uma festa. Trad. Ênio Silveira. 15ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

         

 

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


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