O estado do homem natural: vontade escravizada e o entendimento obscurecido

Por Sem. Fernando Razente
Romanos 3.11 (ARA): “(...) não há quem entenda, não há quem busque a Deus;”
No texto da semana passada, vimos Paulo afirmar, no versículo 10, a universalidade do pecado ao declarar que “não há justo, nem um sequer”. Com essa citação das Escrituras, o apóstolo estabelece o diagnóstico inicial e incontornável da condição humana: diante de Deus, nenhum homem pode reivindicar justiça própria.
Agora, porém, Paulo aprofunda esse diagnóstico. No versículo 11, ele avança da declaração geral de injustiça para a análise das faculdades internas do homem caído. Ao afirmar que “não há quem entenda, não há quem busque a Deus”, o apóstolo ancora de modo ainda mais explícito a doutrina da depravação total na autoridade final das Escrituras, mostrando que o pecado não afeta apenas os atos externos, mas também o entendimento e a vontade.
Assim, Romanos 3.11 dá continuidade à longa cadeia de citações do Antigo Testamento (cf. Rm 3.10-18), agora com o propósito de demonstrar que a humanidade, sem Cristo, não apenas carece de justiça, mas está espiritualmente incapacitada de conhecer e buscar a Deus por si mesma. Vamos ao texto.
Neste versículo 11, Paulo apresenta duas negações absolutas: (1) “Não há quem entenda” e (2) “não há quem busque a Deus”. No texto grego, Paulo utiliza termos fortes e universais.
Primeiro, o verbo syní?mi traduzido como “entenda” vai além de um mero conhecimento intelectual. Refere-se ao discernimento espiritual, compreensão profunda e correta da realidade diante de Deus. Ou seja, Paulo está dizendo que o homem natural até pode conhecer fatos sobre Deus (Rm 1.19–21), mas não compreende a verdade de modo salvador, pois seu entendimento está obscurecido pelo pecado (Ef 4.18).
Os pecadores podem olhar para essa cláusula e revirar os olhos, pois muitos hoje possuem uma graduação, um mestrado, um doutorado, etc. Mas é importante lembrar do que disse Calvino: “O homem em quem não há o conhecimento de Deus, seja qual for a cultura que venha a possuir, será fútil.” (CALVINO, 2014, p. 136). Nenhuma cultura, nenhuma erudição tem algum valor diante de Deus se está não estiver acompanhada do conhecimento genuíno e salvador do Ser e obras de Deus.
Segundo, o verbo ekz?te? traduzido como “busque” indica uma busca diligente, intencional e perseverante; e Paulo afirma que, em seu estado natural, o ser humano não possui essa inclinação genuína para buscar a Deus conforme Ele verdadeiramente é. O homem natural até busca benefícios, alívio ou segurança religiosa ou amizades religiosas, mas não busca a Deus em verdade, arrependimento e fé de forma natural, sem a prévia e fundamental intervenção do Espírito Santo.
Por fim, o que essas duas cláusulas nos ensinam é que o homem é incapaz de buscar a Deus por si mesmo, e que essa incapacidade da vontade decorre também da incapacidade de compreendê-lo espiritualmente. Aqui há uma ordem importante: a vontade segue o entendimento; como o entendimento está corrompido, a vontade está escravizada ao pecado (Jo 8.34).
Por isso, Romanos 3.11 vai contra qualquer esperança de salvação baseada na iniciativa humana ou no suposto livre-arbítrio. Afinal, se não há quem entenda nem quem busque a Deus de forma natural e espontânea, então a salvação precisa proceder exclusivamente da graça soberana, de um ato externo ao ser humano, e que conceda ao pecador a fé, o arrependimento e a conversão.
O que sabemos é que toda essa obra de renovação e regeneração espiritual não possui outro agente senão única e exclusivamente Espírito Santo através da Palavra (Ez 36.26–27; Jo 3.5–8).
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
