Mestres do universo – parte final

Há mais ou menos um mês, precisamente em 06 de junho, fui ao cinema assistir a Mestres do Universo, ou como alguns preferem, Masters of the Univers, sobre a obra escrevi uma pequena resenha que findava prometendo continuidade. Aqui estou, retornei ao cinema para me certificar de outras coisas que me chamaram a atenção e, sobre uma delas, vou dedicar algumas poucas palavras.
Antes, gostaria de criticar a crítica. Disseram ser o filme uma espécie de colcha de retalhos não harmoniosa. Particularmente, eu, fã que sempre fui do desenho animado, me divertir muito e não me dei conta dos tecidos desarmônicos. Ser crítico não deve ser uma profissão muito feliz, viver em busca do erro, realmente não traz felicidade.
O longa de 2026 traz algumas surpresas, uma delas é a presença de negros em Etérnia, algo que não havia na animação original. Entre eles está Duncan, o pai de Teela, que é o mentor de armas do Rei, daí seu apelido Mentor. O britânico Idris Alba é quem faz o papel do personagem, vital para o desenrolar da trama.
Entretanto, o filme me levou a um extremo desconforto quando, após perder uma briga para Mandíbula, um dos subordinados de Esqueleto, Mentor se transforma em um bêbado desprezível, que vive na sarjeta, como se fosse um cão sarnento. Não há algo parecido com isso em um episódio sequer da animação.
Então, por que para o Mentor negro é reservada essa colocação?
Recentemente, a atriz Taís Araújo, que é negra, se viu envolta em desconforto quando sua personagem Raquel, depois de muito batalhar para vencer na vida, volta ao estado de pobreza. O mesmo não aconteceu na primeira versão da novela Vale Tudo, na época o papel fora interpretado por Regina Duarte, uma mulher branca.
Taís, em entrevista, comentou: "Esse momento da Raquel voltar a vender sanduíche na praia, confesso que recebi com um susto. Não era a trama original. Para mim, a Raquel ia numa curva ascendente. [...]. Como mulher negra, como artista negra, tinha a esperança de ver outra narrativa sobre mulheres negras”[1].
Ela está corretíssima. Seja na trama de Mestres do Universo ou em Vale Tudo. Por que aos negros que ascendem sempre lhes é reservado a possibilidade do retorno, o lugar de retorno: a pobreza. É a ameaça velada, lembrando a todo o momento que lhes foi aberta uma concessão, que, de fato, a vida de benesses, não lhes pertence.
Para finalizar as exemplificações, trago as narrações difundidas pela transmissão brasileira da última Copa Africana de Nações. As falas apócrifas se reduziam a comparar lances, jogadas e jogadores a animais, atribuindo-lhes um estágio ainda selvagem. Narradores, repórteres e comentaristas dominavam muita coisa, menos a história e o bom futebol jogado pelos diversos povos africanos.
Infelizmente a arte também encaixota pessoas, mesmo que ela seja um ponto de ruptura. Somando o futebol como obra de arte, enxergo pessoas negras sendo ameaçadas com a constante possibilidade de retorno a um estágio primitivo anterior. Negar-lhes vivências revela o quão ignorante, perversa e racista é a sociedade.
[1] Reportagem completa disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/pop/vale-tudo-tais-araujo-admite-frustracao-com-jornada-de-raquel-entenda/

