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Memórias emprestadas


Por: Jacilene Cruz
Data: 09/02/2026
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Na maioria das vezes, trago memórias pessoais para as escritas aqui do Jornal Noroeste. Entretanto às vezes, pego emprestado memórias de outras pessoas. Sei que as minhas são boas, mas é a segunda vez que a Cícera me empresta as dela e, tenham certeza, merecem ser eternizadas nas nuvens que por hora pairam.

Indo quase direto ao ponto, posso dizer que eu (e a maioria das pessoas que me leem) tem os Correios como parte integrante da sua existência. Ainda nos sentimos invadidos por tamanha alegria quando, à porta, bate alguém vestido de calça azul royal e blusa amarelo ouro. Um salve para os carteiros!

Belos dias aqueles que escrevíamos cartas. A espera pela resposta enchia o estômago de borboletas e suspendia a passagem do tempo.

Viajavam pelas mãos dos carteiros, histórias que realmente mereciam ser contadas e cantadas. Por essa razão, recorro ao repertório musical brasileiro, ele é recheado de canções inspiradas naquelas folhas de papel dobradas e colocadas dentro de envelopes.

Erasmo Carlos cantou: “Escrevo/ estas mal traçadas linhas/ meu amor / Porque veio a saudade/ Visitar meu coração [...][1]”. O grupo Roupa Nova com suas vozes divinais também não deixou passar: “Cartas/Não olham nos olhos/Foi bem mais fácil escrever/Dentro/De cada palavra/Vai um pouquinho do meu coração [...][2]”.

Eu poderia usar parágrafos e mais parágrafos trazendo exemplos e exemplos de escritas sobre a escrita de cartas, mas não transformarei esta crônica em algo enfadonho, fiquem tranquilos. Contudo peço paciência para apresentar mais um exemplo. É importante porque este será o ponto de encontro de minhas memórias com a cedida pela minha amiga Cícera.

Agora que a permissão me foi dada, pacientes leitores, creio ser na voz de Cássia Eller a melhor cantoria sobre as mal traçadas linhas. Com conhecimento zero sobre teoria musical, digo que a combinação da letra, da voz e do ritmo transformou ECT em algo extraordinário, cantado nos quatro cantos desse país.

Abram alas para parte da letra: “Tava com cara que carimba postais / Que, por descuido, abriu uma carta que voltou / Levou um susto que lhe abriu a boca / Esse recado veio pra mim, não pro senhor / Recebo o crack, colante / Dinheiro parco, embrulhado / Em papel carbono e barbante / Até cabelo cortado / Retrato de 3x4 / Pra batizado distante / Mas isso aqui, meu senhor / É, uma carta de amor [...]”

Eu sei que você não leu, e sim cantou junto com a voz forte de Cássia a indiscrição cometida pelo senhor Fulô Boca Rica: um carteiro soteropolitano aposentado que abria as cartas e sabia da vida de todo mundo[3].

Relembrar grandes artistas e suas escolhas musicais perfeitas é muito reconfortante, enche o coração de satisfação. Mas levarei essa escrita para um lugar menos alentador. Por isso, reitero minhas desculpas, todavia é necessário pisar nesse desconfortável lugar.

Um rapaz, morador de um distrito de uma cidade do interior, apaixonado, mas sem condições de casar e sustentar uma família, resolveu ir para a capital em busca de meios de realizar o desejo. A namorada, igualmente apaixonada, ficou no distrito, esperando as cartas do seu amor e as instruções que deveria seguir.

O namorado assim o fez, enviou correspondências dizendo como estava e quais eram seus planos. Nunca recebeu resposta. Enquanto isso, com a demora em receber as correspondências e sabedora do endereço onde seu amado vivia, enviou também cartas. Assim como ele, também não recebeu respostas.

Ele, triste, esperou alguns anos. Com vergonha de ter sido rejeitado, não voltou mais ao distrito. Depois da dor ter se acomodado em seu coração, se casou com outra, tendo o primeiro amor sempre na memória. Ela, alfabetizadora de interior, envolvida em enorme tristeza, afinal tinha sido abandonada, trancou seu coração.

O que havia entre os dois, vocês já devem imaginar: a ECT e sua única funcionária naquele esquecido lugar. Irmã do apaixonado namorado, não gostava da pretensa cunhada. Dois corações feridos, uma vida arruinada.

Alguns muitos anos se passaram, minha amiga Cícera cursava o ensino médio. Ela e seus colegas adolescentes viravam o povoado de ponta cabeça. Um dia, passeando pelos becos e vielas, viram a casa abandonada da lendária e brava funcionária dos Correios. Esta tinha sido transferida, foi embora deixando para trás a própria residência e muitos pertences. Entre eles, no meio da sala, estava um grande baú.

Curiosos, deram mil palpites sobre o que havia dentro da grande caixa. Para sanar a inquietação, decidiram passar pela porta que já não existia, e ver quem tinha acertado. Ao abrirem a velha arca, ficaram boquiabertos, se depararam milhares de cartas que deveriam ter sido entregues aos moradores ou enviadas aos de outras cidades. Nenhum deles palpitou certo.

O povoado plantou bananeira com a acertada decisão que os adolescentes tomaram: entregar as cartas a quem era de direito. O distrito se viu envolto num vendaval, um verdadeiro bafafá de indignação. Carteiros por um dia, saíram casa por casa entregando as correspondências e dizendo como as encontraram.

Como era de se esperar, chegaram até a casa da professora e entregaram as cartas que ela depositou nos Correios e as que deveria ter recebido. A solitária mulher sentiu alívio por não ter sido abandonada, ao mesmo tempo, a tristeza foi reacesa no seu coração.

A pequena sociedade distrital chegou à conclusão de que a funcionária boicotava a comunicação de qualquer pessoa que lhe fosse desafeta. Cícera e seus amigos elucidaram várias questões, mas não conseguiram um final feliz para aquela história de amor.

 



[1] A carta – música eternizada na voz de Erasmo Carlos, composição de Benil Santos e Raul Sampaio.

[2] Cartas – composta por Cleberson Horsth e Nando, integrantes do grupo Roupa Nova, que gravou a canção.

[3] Este fato ocorreu no Candeal, bairro onde também residia o  músico Carlinhos Brown, um dos compositores da canção ECT juntamente com Marisa Monte e Nando Reis. https://novabrasilfm.com.br/notas-musicais/multiversos-ect-de-marisa-brown-e-nando

Jacilene Cruz


Anuncie com Jornal Noroeste
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