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Estatuetas no canteiro central da avenida


Por: Jacilene Cruz
Data: 13/01/2026
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Não sei vocês, mas eu, de certa forma, tenho medo do tempo. Não aquele medo desesperador que faz mudar de face e ficar irreconhecível, mas aquele que sabe que já vivi mais do que viverei.

Cecília, a Meirelles, depois de tantas mudanças naturais, quis saber: “– Em que espelho ficou perdida a minha face?[1]” E Belchior em Pequeno mapa do tempo[2], cantou: “Eu tenho medo de abrir a porta / Que dá pro sertão da minha solidão / Apertar o botão: Cidade morta / Placa torta indicando a contramão”

Quer a gente queira ou não, o tempo passa por nós e deixa marcas, por mais que tentemos, não conseguimos escondê-las. Aliás, na maioria das vezes, maquiar, só as evidencia.

Na corda bamba entre a mulher do retrato e o rapaz latino-americano, estou mais para o rapaz. Tenho medo do que vou ver quando abrir a porta, de apertar o botão, medo especialmente, das placas da cidade.

E por falar nisso, as cidades não foram feitas para nós, “envelhecendos” e envelhecidos. Sobre isso, tenho uma história interessante.

Há um tempo, eu e mais duas amigas fomos tomar sorvete. A sorveteria ficava numa avenida movimentada. Decidimos, depois de deliciadas com a iguaria gelada, ir até a praça do outro lado da avenida. Fomos.

Conversamos, rimos, fotografamos e fomos fotografadas. Longe  de mim dizer que Boa Vista é a melhor capital do Norte do Brasil, mas aqui tem praças lindas, revigorantes e reconfortantes. De repente nos demos conta que tínhamos de cruzar a avenida de volta para irmos para casa.

Estava em horário de pico. Mesmo acenando na faixa de pedestre, o vrum-vrum dos carros não cessava. Nos apequenamos diante do frenético ir e vir dos automóveis acelerados – estatuetas no canteiro central da avenida. Vendo nossa agonia, dois rapazes se projetaram sobre a faixa e fizeram sinal com as mãos. Os carros pararam e eles nos atravessaram em segurança. Agradecemos e rimos, surpresas e sem graça.

Depois de alguns minutos, dirigindo de volta para casa, me dei conta que a velhice está fazendo morada no meu rosto. O medo me percorreu a espinha e, paradoxalmente, espero ter um feliz tempo novo.



[1] Último verso do poema Retrato de Cecília Meirelles. Disponível em: https://www.pensador.com/frase/MjUwODA/

Jacilene Cruz


Anuncie com Jornal Noroeste
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