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Digger


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 01/10/2026
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O lançamento dessa semana traz um velho conhecido do público, o astro Tom Cruise. Um ator versátil, que já interpretou praticamente tudo. Agente secreto, piloto, advogado, vampiro, samurai, astronauta, piloto de corrida. Agora, aos 64 anos, ele aparece em uma situação bem diferente em Digger, novo filme do aclamado diretor Alejandro G. Iñárritu. Uma obra cara, feita sob medida para a corrida do Oscar e que está dividindo a opinião dos críticos. Essa semana a Coluna Sétima Arte te deixa por dentro dessa obra, no mínimo, controversa!

Em Digger, o ator interpreta Digger Rockwell, um bilionário do petróleo que provoca uma catástrofe ambiental e, diante do problema, passa a acreditar que é justamente ele quem deve salvar o planeta. A premissa já deixa claro que não estamos diante de mais um filme de ação de Tom Cruise. E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes da produção. Em vez de usar o astro para repetir a fórmula que o transformou em um dos maiores nomes do cinema comercial, Iñárritu parece interessado em brincar com a própria imagem do ator. Digger é grandioso, convencido e completamente apaixonado por si mesmo. E Cruise abraça isso sem medo de parecer ridículo.

A história começa quando uma operação de exploração de petróleo na Groenlândia provoca o rompimento de uma gigantesca camada de gelo, que começa a se deslocar em direção à Europa. A partir daí, governos e autoridades entram em uma corrida contra o tempo para tentar conter as consequências. Só que o filme não está realmente interessado em mostrar como o mundo enfrentaria uma catástrofe dessa dimensão. O desastre serve como cenário para a sátira de Iñárritu. E ele não economiza. O diretor transforma reuniões políticas, militares e científicas em situações que muitas vezes beiram o absurdo. O presidente dos Estados Unidos, interpretado por John Goodman, é um dos melhores exemplos disso. Goodman constrói um personagem que parece levar cada discurso ao limite, e justamente por isso consegue arrancar algumas das melhores cenas do filme. É uma atuação exagerada, mas o exagero faz parte da proposta.

Tom Cruise segue pelo mesmo caminho. Digger Rockwell não é um personagem feito para ser simpático. Ele é arrogante, egocêntrico e tem uma confiança desproporcional na própria capacidade. O mais curioso é acompanhar Cruise, um ator tão associado a personagens que resolvem problemas, interpretando alguém que também acredita ser capaz de resolver tudo, mas que foi justamente o responsável por criar boa parte do problema. É aí que a escolha do ator começa a fazer ainda mais sentido. Durante boa parte do filme, Cruise parece brincar com a própria persona. A maquiagem, os gestos e a maneira de falar deixam Digger próximo de uma caricatura. Em outro filme, isso poderia simplesmente ser exagerado demais. Aqui, funciona porque o personagem vive em um mundo em que todos parecem acreditar que possuem alguma importância maior do que realmente têm. Riz Ahmed também merece destaque como Ganesh, o cientista que acaba envolvido nessa confusão. Seu personagem funciona como um contraponto ao protagonista e ajuda a manter alguma racionalidade em meio ao comportamento cada vez mais absurdo dos demais personagens. Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg e Jesse Plemons completam um elenco que entende muito bem o tom escolhido pelo diretor.

Sobre a questão técnica, Iñárritu também encontra uma maneira interessante de apresentar esse universo visualmente. A fotografia de Emmanuel Lubezki trabalha com cores mais apagadas e uma iluminação que deixa muitos ambientes com uma aparência quase artificial. A influência de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de 2014, outra parceria entre o diretor e o fotógrafo, aparece principalmente na encenação e na relação entre câmera e atores. Não é uma fotografia que tenta deixar o filme bonito o tempo inteiro. Pelo contrário. Existe uma certa frieza nas imagens que combina com aquele mundo dominado por políticos, empresários e pessoas acostumadas a tomar decisões que afetam milhões de outras.

O roteiro, porém, é onde Digger apresenta seus maiores problemas. Iñárritu e seus colaboradores têm muitas ideias e fazem questão de apresentar praticamente todas. O filme começa como uma sátira ambiental, passa pela política internacional, brinca com a cultura dos bilionários e ainda encontra espaço para algumas reviravoltas que mudam a maneira como entendemos a história. Algumas dessas escolhas funcionam muito bem. Outras parecem desnecessárias. Em determinados momentos, a produção explica demais aquilo que já havia conseguido mostrar. Nesse sentido, seria mais eficiente se confiasse um pouco mais no espectador. Não chega a comprometer a experiência, mas tira um pouco da força de algumas situações.

Ainda assim, existe algo bastante interessante na maneira como Iñárritu conduz a história. Ele não transforma o filme em uma simples discussão entre mocinhos e vilões. Digger é evidentemente uma caricatura, mas o diretor amplia a crítica para além dele. O problema não está apenas em uma pessoa ou em um grupo específico. Está também na maneira como poder, dinheiro e influência podem criar a sensação de que determinadas pessoas estão acima das consequências de suas próprias decisões (parece mundo real, né?). E isso ajuda a explicar por que o filme funciona melhor como sátira do que como filme-catástrofe. As grandes cenas de destruição são importantes, mas não são elas que sustentam a produção. O que realmente chama atenção é observar aquelas pessoas tentando administrar uma situação que elas próprias não conseguem compreender completamente.

Talvez Digger não seja tão sutil quanto poderia. Em alguns momentos, a mensagem está praticamente escrita na tela. Mas também não acho que isso seja suficiente para diminuir o interesse pelo filme. Iñárritu parece saber exatamente o que está fazendo ao exagerar personagens e situações. E o resultado é uma produção que pode provocar reações bem diferentes. Quem espera encontrar outro grande filme de ação de Tom Cruise provavelmente vai estranhar. Quem espera um novo Birdman ou O Regresso também pode sair frustrado. Digger está em outro lugar. É uma sátira, e precisa ser vista dentro dessa proposta. Para mim, o grande mérito está justamente em Cruise aceitar brincar com a própria imagem.

Por que ver esse filme? Digger não é perfeito. Mas há personalidade suficiente para fazer com que o filme não passe despercebido. No fim, a graça está em acompanhar o protagonista tentando salvar um mundo que ele mesmo ajudou a colocar em risco. E é justamente aí que o filme encontra seu melhor ponto. O personagem acredita que tudo pode ser resolvido com dinheiro, poder e confiança. O cinema de Iñárritu parece dizer que talvez o problema comece exatamente quando alguém acredita demais nisso. E, reflita um pouco, quanta gente na atualidade não pensa do mesmo jeito?! Bem por isso, vale assistir a Digger mais pela sátira e pelas atuações do que pela catástrofe que coloca toda essa história em movimento. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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