A generic square placeholder image with rounded corners in a figure.


Devoradores de Estrelas


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 19/03/2026
  • Compartilhar:

Semana tensa para os brasileiros apaixonados por cinema, estamos na ressaca do Oscar 2026 e com aquele gosto amargo na boca de que fomos esnobados muito mais pelo conservadorismo do que necessariamente pela falta de qualidade. Digo isso porque nas categorias que nosso filme brasileiro, O Agente Secreto, concorreu, ele era sem dúvida o mais inovador e propenso a um prêmio. Porém, como muitos já previam a Academia seguiu a trilha segura do “mais do mesmo” e votou em filmes de qualidade, porém, esquecíveis (sim, essa é uma opinião muito particular minha em relação ao filme Valor Sentimental, que esteva aqui na Coluna na semana passada). Ruim para eles, que perderam a chance de reconhecerem que, mais uma vez, o cinema brasileiro foi excepcionalmente criativo e competente. Para nós, fica a sensação de orgulho, por ter visto uma obra tão boa chegar tão longe, mas não receber o reconhecimento que lhe era devido. Foi quase um dejavú do Oscar de 1999.

Mas, é vida que segue e se tem uma coisa que não para é a indústria do cinema, capaz de preencher nossas frustrações nacionalistas com filmes que nos ganham pela grandiosidade da proposta ou pela intimidade das relações que constroem. Tanto que a estreia desta semana, Devoradores de Estrelas, tem a curiosa habilidade de caminhar com segurança nessas duas frentes, uma qualidade que faz dele um filme, no mínimo, interessante.

A premissa, por si só, já carrega um peso considerável. Baseada no livro de ficção científica Projeto Ave Maria (Project Hail Mary, no original), ela traz uma história bastante impactante, o Sol está “adoecendo”, lentamente sendo sconsumido por uma forma de vida microscópica, e a humanidade tem prazo de validade. Não é exatamente o tipo de problema que se resolve com boa vontade e um plano mirabolante no melhor estilo MacGyver. É o fim, ou algo perigosamente próximo disso. E, no meio desse cenário pouco convidativo, somos apresentados a figura de Ryland Grace, um protagonista que está longe de ser o herói clássico. Aliás, o filme faz questão de deixar isso claro desde o início.

Grace acorda sozinho em uma nave, sem memória, cercado por cadáveres e perguntas demais para alguém nesta situação tão drástica. O esquecimento do protagonista poderia facilmente soar preguiçoso, mas aqui ele funciona como uma engrenagem eficiente. À medida que o personagem se reconstrói, o público também vai montando o quebra-cabeça. E há um certo prazer nisso, quase como assistir a um suspense disfarçado de ficção científica. Mas o filme não demora a se mostrar por completo, bem por isso, por trás da trama de sobrevivência espacial o público compreende que existe uma história sobre identidade, culpa e, principalmente, propósito. Grace não é um gênio confiante. Pelo contrário, ele carrega uma insegurança quase incômoda, um sentimento constante de não pertencimento. E isso gera empatia. Em um gênero que frequentemente se apoia em figuras quase mitológicas, ver um protagonista que hesita, erra e duvida de si mesmo é um respiro para o expectador.

Outro ponto interessante é o apego quase obsessivo à ciência que os diretores, Phil Lord e Christopher Miller, demonstram ao longo da obra. São explicações, conceitos, experimentos! Tudo está ali, muitas vezes detalhado com um entusiasmo que beira o didático. Em alguns momentos, o ritmo sente. Há trechos em que a narrativa parece dar uma pausa para virar uma aula. Não chega a comprometer, mas exige do espectador uma certa boa vontade. Por outro lado, quando o filme encontra seu eixo emocional, ele flui muito bem. Neste sentido, a entrada de Rocky na história é, sem exagero, o ponto de virada. O primeiro contato entre as duas espécies poderia cair em clichês ou em uma abordagem excessivamente técnica, mas o filme escolhe outro caminho, o da relação. E acerta em cheio. A construção dessa amizade improvável é, de longe, o coração da obra.

Existe algo de profundamente humano (isso é quase irônico) na forma como os dois se conectam. A barreira da comunicação, que poderia ser um obstáculo intransponível, se transforma em um dos elementos mais interessantes da narrativa. Há humor, há estranhamento, há curiosidade. E, aos poucos, há afeto. Um afeto que cresce de maneira orgânica, sem pressa, e que acaba se tornando mais importante do que a própria missão. E aqui está um dos pontos mais bonitos do filme. Ele começa falando sobre salvar o mundo, mas, no meio do caminho, percebe que talvez salvar alguém já seja suficiente.

Visualmente, Devoradores de Estrelas também encontra sua identidade. Não é um espetáculo de explosões e grandiosidade vazia. Pelo contrário, existe uma delicadeza na forma como o espaço é retratado. Por vezes o espaço é opressor, em outras é fascinante. A direção entende bem o peso do silêncio, do isolamento, da vastidão. E sabe equilibrar isso com momentos quase contemplativos, que dão ao filme um ritmo próprio.

A trilha sonora acompanha esse movimento com competência, alternando entre o épico e o íntimo sem parecer deslocada. É daquelas que não pedem atenção, mas fazem diferença. E, claro, não dá para ignorar o desempenho do protagonista, interpretado de forma competente por Ryan Gosling. Há um carisma ali que sustenta o filme mesmo nos momentos mais expositivos. Ele consegue transitar bem entre o humor meio constrangido e o desespero silencioso, sem nunca perder a credibilidade. É uma atuação que não grita, mas permanece.

Por que ver esse filme? Porque Devoradores de Estrelas é um filme que poderia facilmente se perder na própria ambição (seja pelo excesso de ciência, seja pela grandiosidade do tema), mas que apresenta um equilíbrio muito peculiar ao apostar no que realmente importa: as relações. E só por isso, já vale a ida ao cinema. Nem tudo é perfeito, há momentos em que a narrativa se alonga mais do que deveria. Algumas explicações poderiam ser mais sutis? Com certeza! Mas, quando o filme acerta e isso acontece bastante, ele entrega algo que vai além do entretenimento. Existe uma mensagem ali, talvez até um pouco ingênua, sobre colaboração, empatia e esperança. E, em tempos em que o cinismo parece dominar boa parte das histórias tanto na ficção quanto no mundo real, isso ganha um valor exorbitante. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
A caption for the above image.


Veja Também


smartphone

Acesse o melhor conteúdo jornalístico da região através do seu dispositivos, tablets, celulares e televisores.