Café com leite

- Ela também! Minha mãe também joga!
Os meninos na quadra me olharam de um jeito estranho e meio curioso.
Naquele sábado à tarde, meus filhos me chamaram pra jogar basquete em uma quadrinha perto de casa.
Sem pensar muito, coloquei o tênis e fui.
Chegando na quadra, vários meninos entre uns quinze e dezoito anos arremessavam e corriam.
De cara, sentei em um canto e resolvi esperar. Levantei depois que meu filho revelou meu grande segredo: também gostava de jogar.
- Vem jogar então, tia!
Entrei na fila do lance livre para a divisão dos times.
- Não precisa não, tia. Você vai ficar no time com a gente.
- Ok, então.
Era o time dos meninos mais altos e mais velhos. E também mais habilidosos. Só fiz o que me mandaram.
O primeiro jogo começou. Bola pra lá, bola pra cá. No começo, ninguém me passava. Então roubei algumas. Fiz uns bons passes, algumas cestas e várias assistências. Vencemos bem rápido.
- Nossa! Ela é boa, a tia!
O time perdedor ficou irritado.
- Não vai dar certo! Vamos dividir os times de novo!
- Não vou sair desse time! – Eu disse, rindo por dentro - Não mandei vocês acharem que sou café com leite!!
No fim da tarde, já me olhavam de um jeito diferente.
- Ei, tia, você já jogou antes?
- Sim. Jogava todos os dias na sua idade e ainda tento jogar sempre que posso.
- Nossa!!
- Tem mais outras mulheres que vêm jogar aqui? – Perguntei, sem saber o que ouviria.
O menino pensou bem e depois lembrou:
- Tem sim. Tem uma mocinha de uns dezoito anos. Mas está sempre com a família.
- Ah, legal.
Sorri sem dizer mais nada.
Por um instante, senti um prazer genuíno em estar ali.
Uma alegria verdadeira ao perceber que eu – uma mulher “café com leite” pra muita gente – ainda posso sentir o sangue correndo pelas veias ao colocar um tênis e encarar uma partida de basquete com um bando de moleques.

