Pai

Eu só queria um pouco de silêncio.
E aquela noite estava gelada.
A sauna no clube talvez fosse um refúgio quente onde eu pudesse ficar um pouco com meus próprios pensamentos.
Fizemos como em todas as terças. Entramos no carro e saímos.
Ela gostava de me acompanhar. Talvez também gostasse do mesmo silêncio. Mas eu não conseguia saber ao certo.
Um barulho diferente.
Eu não sabia o que era. Achei que fosse o motor. E depois o pneu. Não foi necessário parar, e foi um alívio. Seria melhor descobrir o problema no estacionamento do que parar no meio da rua.
Ela não me disse nada. Como nunca dizia. Apenas segurava minha blusa para o momento em que eu precisasse vestir.
Estacionamos. Antes mesmo de desligar o carro, o barulho parou. Abri a porta para olhar. Estava gelado. Pedi que ela me desse a blusa.
– Blusa?
– É. Minha blusa.
Ela me olhou de um jeito diferente. Um jeito muito estranho. Achei que ia chorar.
– Anda, minha blusa!
Sua mão tremia. Me entregou o que sobrou da blusa e um monte de fiapos. Como não percebi aquilo? Não era o motor e nem o pneu. O barulho era a roda estatelando minha roupa a cada movimento. Se tivesse parado lá atrás isso simplesmente não teria acontecido.
Apenas respirei fundo. Pelo menos não teria nada no carro para consertar.
– Desculp...
Não soube o que responder.
Minha filha e suas distrações.
E eu apenas pensei em como seria quando coisas assim se repetissem em sua vida adulta.
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

