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A salvação não é um salário (Rm 4.4-5)


Por: Fernando Razente
Data: 08/09/2026
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Romanos 4.4-5: 4 Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. 5 Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça.

No texto da semana passada (cf. Rm 4.3), vimos Paulo argumentando a respeito do meio da justificação de Abraão. Paulo, citando Gênesis 15.6, mostrou que a justiça (aprovação) de Deus foi imputada/colocada/creditada a Abraão mediante a fé nas promessas de Deus! Agora, nos versos 4 e 5, Paulo usa o exemplo do trabalho para explicitar ainda mais esse princípio de imputação da justiça mediante a fé.

Ele começa falando do salário como comumente era (e é) entendido, a partir do verso 4: “Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida.”

Para entender melhor o que Paulo diz aqui, pense na seguinte situação hipotética: após 30 dias de trabalho extenuante, cumprindo fielmente suas obrigações, José, um trabalhador dedicado, chega ao RH no fim do mês para receber o seu salário. Ele não está ali para pedir um favor, mas para receber aquilo que lhe é devido. Afinal, o salário corresponde ao trabalho realizado, aos serviços prestados e às obrigações cumpridas. Nesse caso, o pagamento não é uma graça do patrão, mas uma dívida; não é um presente, mas a adequada retribuição. É exatamente essa lógica que Paulo apresenta em Romanos 4.4.

Mas quando Paulo passa da função do trabalhador diante do pagador, para a situação do pecador diante de Deus, toda essa lógica desmorona. Diante de Deus, o pecador não é um funcionário que trabalhou o suficiente para apresentar sua folha de ponto e reivindicar seu pagamento. Ele é, nas palavras do apóstolo, “o que não trabalha” (v. 5). A ideia de Paulo com essas palavras não é dizer que todo o pecador é um desempregado; o princípio aqui é espiritual. O “que não trabalha” é o pecador que é incapaz de fazer qualquer coisa que obrigue a Deus a lhe dever algo, como a salvação.

Porém, diz Paulo, ainda que não trabalhe (tenha méritos), ele “crê naquele que justifica o ímpio” (v. 5). Deus – diferente do patrão que demanda realizações prévias para o pagamento salarial – promete salvar o pecador graciosamente, independentemente das obras da lei, mediante a fé em Jesus Cristo (cf. Gl 3.11). E, aquele que crê em Deus que aceita o ímpio com base em Cristo, “a sua fé” como em Abraão “lhe é atribuída como justiça.” (v. 5).

Porém, seria essa fé ou crer, uma obra também? A resposta é: não. Como observa Calvino, “[...] a fé nos traz justiça, não porque é um ato meritório, mas porque nos dá o favor de Deus.” A fé, sendo um dom de Deus (cf. Ef 2.8), é o veículo e instrumento de nossa justificação, de modo que, quando cremos na promessa de Deus baseada em seu próprio Ser bondoso e misericordioso em Cristo, somos aceitos pelo Pai. Dessa forma – mais uma vez, conforme Calvino – “A fé é contada pela justiça, não porque nos dê qualquer mérito, mas porque se mantém na bondade de Deus”.

Em resumo, Paulo nos ensina nos versos 4 e 5 de Romanos 4 que apenas pela fé, a justiça/aceitação de Deus necessária para a nossa salvação nos alcança (nos é atribuída) de forma graciosa; não porque trabalhamos ou labutamos muito por isso, e nem como se a própria fé fosse uma obra que obriga Deus a nos dar a salvação; mas porque cremos no Deus que prometeu ser gracioso por meio de obra de justificação em Cristo, em benefício de pecadores miseráveis e em débito com Ele. A essência do ensino paulino aqui é que “Deus não nos confere justiça porque é devida, mas a concede como um presente.”, diz Calvino.

Querido (a) leitor (a), talvez o nosso maior problema seja pensarmos que somos trabalhadores diante de Deus e, ele, nosso patrão. Por isso, também pensamos que somos merecedores de receber o “salário” da salvação. Olhamos para nossas obras, nossa moralidade, nosso serviço na igreja como olhamos para o nosso trabalho na empresa, e pensamos: “Deus me deve a salvação, assim como o patrão me deve o salário!”.

Mas Paulo aqui destrói essa pretensão: diante de Deus, não somos trabalhadores reivindicando salário; somos pecadores falidos e em débito infinito, que nada podem exigir ou fazer. A salvação não é um pagamento pelos nossos méritos, mas um presente concedido pela graça, recebido somente pela fé em Cristo.

Portanto, meu convite a você, ao terminar de ler esse texto, é que se comprometa a abandonar a tentativa de apresentar a Deus uma folha de ponto que sinalize méritos e dívidas divinas; arrependa-se desse orgulho carnal, e pela fé descanse na justiça que Cristo conquistou em seu lugar. Lembre-se: Deus não lhe deve a salvação; se você a possui, é porque recebeu aquilo que jamais poderia reivindicar: a graça. Seja grato, sirva o Senhor e leve esta mensagem adiante!

Amém.

Fernando Razente

Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel


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