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O tempo está passando mais rápido ou somos nós que mudamos?


Por: Alex Fernandes França
Data: 08/09/2026
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Com a chegada do último quadrimestre, cresce a impressão de que o calendário acelerou; estudos mostram que rotina, memória, emoções e sensação de falta de tempo influenciam a maneira como percebemos a passagem dos dias.

(Foto: Freepik) - O relógio não acelera, mas a sensação é de que o tempo voa. Setembro chegou e trouxe a inevitável pergunta: como 2026 passou tão rápido?

“Parece que foi ontem que o ano começou.” A frase provavelmente já apareceu em alguma conversa nos últimos dias. Setembro chegou, o segundo semestre avançou rapidamente e, de repente, começam a surgir os comentários de que 2026 está passando depressa demais.

Mas será que o tempo realmente está passando mais rápido?

A resposta é não. O relógio continua seguindo o mesmo ritmo. O que muda é a maneira como o cérebro humano percebe e interpreta a passagem do tempo.

A chamada “percepção psicológica do tempo” é subjetiva e pode ser influenciada por aquilo que fazemos, sentimos e vivenciamos. Segundo a Associação Americana de Psicologia (APA), períodos de tédio ou pouca atividade podem parecer mais longos, enquanto momentos de envolvimento intenso em alguma atividade tendem a parecer mais rápidos.

Quando os meses parecem desaparecer

Uma das explicações para a sensação de que os anos passam mais rapidamente está relacionada à rotina e à memória.

Na infância e na adolescência, muitos acontecimentos são novidades: primeiro dia de aula, novas amizades, viagens, descobertas, mudanças de escola, primeiros empregos, relacionamentos e inúmeras experiências que deixam registros marcantes na memória.

Na vida adulta, entretanto, os dias podem se tornar mais previsíveis. Trabalho, compromissos, tarefas domésticas, responsabilidades familiares e atividades repetidas fazem com que muitos dias tenham características semelhantes.

Quando olhamos para trás, períodos repletos de acontecimentos diferentes tendem a parecer mais longos e ricos em lembranças. Já períodos dominados pela repetição podem parecer ter passado rapidamente.

Pesquisas sobre percepção temporal apontam justamente para essa relação entre novidade, memória e sensação de duração. A ideia é que, retrospectivamente, avaliamos determinado período também pela quantidade e pela riqueza das experiências que conseguimos recordar.

A infância parecia durar mais?

Quem já é adulto provavelmente se lembra daquela sensação de que as férias escolares demoravam uma eternidade para terminar.

O mesmo acontece quando comparamos um ano da infância com um ano da vida adulta. Para uma criança, um período de doze meses representa uma parcela significativa de toda a vida vivida até então. Para um adulto, esse mesmo período representa uma fração proporcionalmente menor da experiência acumulada.

Mas essa não é a única explicação.

A quantidade de acontecimentos novos também importa. A infância costuma ser marcada por descobertas constantes. O mundo é desconhecido e, por isso, quase tudo pode se transformar em uma experiência memorável.

Na idade adulta, a familiaridade aumenta e, com ela, a repetição. Isso pode contribuir para a impressão de que os anos estão “encolhendo” quando são lembrados posteriormente.

O relógio não mudou. Nossa atenção, sim

Outro elemento importante é a atenção.

Quando uma pessoa está concentrada em uma tarefa, conversando com amigos ou envolvida em uma atividade prazerosa, ela tende a prestar menos atenção ao relógio. O período pode passar rapidamente.

Em contrapartida, quando alguém está esperando, entediado ou ansioso pelo fim de determinada situação, a atenção se volta constantemente para o tempo.

É por isso que dez minutos esperando por alguma coisa podem parecer muito mais longos do que dez minutos de uma conversa agradável.

A psicóloga Ruth Ogden, pesquisadora da percepção do tempo, explica à APA que emoções e atenção estão fortemente relacionadas à maneira como sentimos a passagem do tempo. A percepção também pode mudar conforme o contexto e o estado emocional da pessoa.

E existe ainda outro fator: a sensação de falta de tempo

A vida contemporânea acrescentou um ingrediente importante à equação: a impressão permanente de que não há tempo suficiente para fazer tudo.

Trabalho, família, compromissos, mensagens, redes sociais, notificações e inúmeras tarefas competem pela atenção ao longo do dia.

Essa sensação de pressão temporal pode fazer com que as pessoas tenham a impressão de estar sempre correndo atrás do relógio.

Pesquisas citadas pela literatura sobre percepção temporal indicam que a sensação de pressão e excesso de compromissos pode estar relacionada à percepção de que períodos da vida passam rapidamente.

Setembro tem um efeito especial

Existe também um componente psicológico associado ao calendário. Quando setembro chega, muitas pessoas passam a perceber que restam apenas quatro meses para o fim do ano. O período entre janeiro e agosto já ficou para trás, enquanto compromissos tradicionalmente associados ao último trimestre começam a aparecer no horizonte.

Dia das Crianças, preparação para as festas de fim de ano, encerramento de atividades escolares, férias, confraternizações e Natal passam a ocupar espaço no planejamento.

O resultado é curioso: o ano ainda tem meses pela frente, mas nossa cabeça começa a tratá-lo como se estivesse na reta final.

Essa mudança de perspectiva pode intensificar a sensação de que o tempo está voando.

É possível “desacelerar” a percepção do tempo?

Não existe maneira de fazer o relógio andar mais devagar. Mas pesquisas sobre percepção temporal indicam que podemos modificar nossa relação subjetiva com a passagem dos dias.

Uma das possibilidades é quebrar, de tempos em tempos, a rotina.

Conhecer um lugar diferente, aprender alguma coisa nova, retomar um hobby, mudar o caminho habitual, encontrar pessoas diferentes ou simplesmente prestar mais atenção às experiências cotidianas pode criar novas referências para a memória. Outra estratégia é registrar aquilo que foi vivido.

Fotografias, diários, anotações ou mesmo uma lista das coisas realizadas ao longo do ano podem ajudar a recuperar acontecimentos que, no cotidiano, acabam ficando esquecidos. A recomendação de especialistas é, em certa medida, simples: não apenas contar o que ainda falta fazer, mas também lembrar tudo aquilo que já foi vivido.

Quatro meses ainda são muito tempo

Talvez setembro seja justamente um bom momento para olhar para 2026 de outra maneira.

Em vez de pensar apenas que “o ano está acabando”, vale lembrar que ainda existem meses inteiros pela frente. Há tempo para concluir projetos, começar outros, rever prioridades e, principalmente, criar novas experiências.

A sensação de que o tempo está passando depressa não significa necessariamente que estamos perdendo a vida. Ela pode ser um convite para prestar mais atenção a ela.

Porque, no fim das contas, o calendário não acelerou. Quem mudou foi a nossa percepção sobre aquilo que acontece enquanto ele avança.

E talvez essa seja uma das melhores razões para aproveitar os próximos meses com um pouco mais de presença. Setembro apenas começou.


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