Theodor Adorno. “Educação e Emancipação”
É difícil mensurar a importância desse livro para mim, pois desde 2010 eu o leio e releio, e já estamos em 2026. A primeira vez que eu o li foi em 2010, para a seleção do Mestrado em Educação na UEL, e desde então ele se tornou uma referência para mim e para os meus alunos. “Tabus acerca do magistério”, um capítulo magistral em “Educação e Emancipação”, tornou-se leitura obrigatória para os meus alunos da Licenciatura em Química.
Em linhas gerais, a obra se divide em textos do próprio Theodor Adorno e em debates com Helmut Becker, sendo todos eles transmitidos e debatidos na Rádio de Hassen, na Alemanha. Portanto, se engana quem pensar que Adorno, um crítico da indústria cultural, não se valia dos meios de comunicação de massa para divulgar as suas ideias. A questão, contudo, é que a sua crítica se dava porque esses meios mais serviam para manipular do que para informar. Não é preciso nem dizer formar, porque daí a distância seria grande demais.
Em “Educação e Emancipação” é possível encontrar textos sobre educação política, tendo na desbarbarização o objetivo central da escola, bem como textos com profundo caráter psicológico, em especial alicerçados na “psicologia profunda” de Freud, e textos com forte teor histórico, como o já mencionado “Tabus acerca do magistério”. Há momentos em que, lendo o livro de Adorno, eu me sinto comovido com a questão da barbárie chamada Auschwitz, que receberá um tópico à parte nesta resenha. e por que dessa comoção, seguida não de passividade, mas de ação? Porque, para me valer de Freud, em seu texto “O mal-estar na civilização”, a barbárie foi engendrada dentro da civilização. A pulsão de morte, que é o instinto de destruição, não veio de fora, mas de dentro do ser humano. As forças externas, como o partido nazista, “apenas” canalizou forças internas. Para mim, que sou educador, isso incomoda muito, porque eu, que promovo a cultura, tenho de ter ciência de que a barbárie também existe em meu ambiente de trabalho. Claro que a questão é mais complexa, tanto em Freud quanto em Adorno, mas já é possível sentir um pouco do incômodo de tais temas.
Adorno quer o tempo todo promover, seja nos textos autorais, seja no diálogo com Becker, a emancipação. Este tema, retomado em grande medida de Kant, é mais do que uma abstração filosófica, é um estilo de vida e um programa de ensino. Um estilo de vida de quem busca sair da menoridade, e um programa de ensino no qual a educação deve promover a emancipação e se colocar contra a heteronomia. É o comportamento heterônomo, que se sujeita docilmente a forças externas, uma das faces da barbárie. A barbárie se assenta na obediência desmedida e no desfacelamento do eu. É preciso promover uma “pedagogia da autonomia”, uma “pedagogia da emancipação”.
O filósofo alemão, com todo o seu rigor filosófico e metodológico, em certos momentos se via contra a parede, não porque Becker não apreciava e não concordava com os seus argumentos, mas porque esses, através de conceitos complexos como o de barbárie, precisavam ser mais esclarecidos. É na busca por esclarecer o que é a barbárie que Adorno a definirá como:
Com barbárie não me refiro aos Beatles, embora o culto aos mesmos faça parte dela, mas sim ao extremismo: o preconceito delirante, a opressão, o genocídio e a tortura; não deve haver dúvidas quanto a isto. (ADORNO, 2008, 117).
Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza. (ADORNO, 2008, p. 155).
A forma de que a ameaçadora barbárie se reveste atualmente é a de, em nome da autoridade, em nome de poderes estabelecidos, praticarem-se precisamente atos que anunciam, conforme sua própria configuração, a deformidade, o impulso destrutivo e a essência mutilada da maioria das pessoas. (ADORNO, 2008, p. 159).
Outro tema que Adorno falará, e este me toca também profundamente, é quanto ao ódio aos professores. Esse ódio não ficou restrito à Alemanha do período de Adorno, como ele bem destacou, mas tem raízes antigas, vindas desde a Grécia antiga, e se estendendo à contemporaneidade. No Brasil de 2026 não são poucas as ironias feitas à classe docente, tantas vezes chamada de “manipuladora”, “doutrinadora” e “esquerdista”; este problema foi amplamente por mim registrado em meus diários. É o velho e bárbaro recurso de que se alguém não pode com o outro no campo das ideias, procura desmoralizá-lo. E não custa dizer que no meu estado, Paraná, ao menos por duas ocasiões, em 30 de agosto de 1988, no governo de Álvaro Dias, e em 29 de abril de 2015, no governo Beto Richa, depois de manifestações docentes por melhores salários e regulamentações de trabalho, de modo desproporcional, os referidos governadores lançaram a cavalaria e a polícia militar contra os professores, machucando-os. Trata-se da lamentável oposição entre força física e força intelectual, que terminou com o império da violência estatal.
Quando eu indico para os meus alunos o livro de Adorno, geralmente no primeiro ano da graduação, e depois eu o retomo, na disciplina de Psicologia da Educação, a reação é a de que a linguagem do filósofo é densa e difícil. Eu digo que é com esse tipo de argumentação, densa mas límpida, que eles devem se acostumar, pois universidade rima com rigorosidade. Claro que esta não tem nada a ver com severidade, em uma tosa apologia ao sofrimento, até porque isto seria uma das faces pelas quais a barbárie se reproduz. Mas, exigir dos estudantes que eles se formem, isto sim é um sinal de luta contra a barbárie, algo que Adorno muito pode ajudar.

