Khalil Gibran. “O Profeta”

“O Profeta” é um texto espiritual que faz com que a pessoa reflita sobre Deus, sobre si mesma, sobre a natureza e sobre o próximo. Um texto espiritual, mais do que tratar de Deus, trata de temas sagrados. Também é um texto que nos leva à introspecção, na qual passamos a meditar sobre assuntos essenciais e que tantas vezes são marginalizados e mesmo julgados como inferiores.
Mustafa, o protagonista da obra, encontra-se a doze anos em Orfalese, esperando pelo navio que o levará à sua terra natal. Ao chegar a embarcação, a população da cidade se aproxima do profeta para que ele compartilhe de sua sabedoria, já que por anos ele se dedicou a meditar sobre a vida. é assim que lhe chegarão um homem rico, um camponês, um juiz, um advogado, um professor e outras pessoas, querendo saber a visão do “eleito e amado” (GIBRAN, 2018, p. 13) sobre temas como doação, trabalho, crime e castigo, leis e ensino.
A narrativa de “O Profeta” se assemelha a outras obras, como “O Pequeno Príncipe” e “Assim Falou Zaratustra”, obras que eu também poderia chamar de espirituais. O tom professoral de “O Profeta” nos convida à meditação, exercício pouco praticado pela sociedade contemporânea, movida cada vez mais pela liquidez de valores e pela pressa.
Quem somos? Para onde vamos? Este “para onde vamos?” não é só para depois que o fôlego de vida expirar, mas para onde conduzimos as nossas ações cotidianas. Para onde vamos quando não ensinamos bem? Para onde vamos quando ensinamos bem? É preciso ver o dia a dia mais do que um mero movimento de ação e reação. Por que há textos que resistem ao tempo? Porque há músicas que resistem às modas? Porque não são clichês, reações. Há um preço a pagar por essa postura para além do usual, mas, tudo tem um preço. Tudo.
Abaixo citarei os vinte e seis temas propostos a Mustafa e, sem que eu traga as respostas do profeta, deixarei que você, leitor, medite sobre eles, e assim o faça não como um simples passatempo, mas como um exercício de generosidade a si mesmo. As pessoas, então, chegavam ao profeta e lhe diziam “fala-nos do”:
· Amor
· Casamento
· Filhos
· Doar
· Comer e Beber
· Trabalho
· Alegria e Tristeza
· Casas
· Vestir
· Comprar e Vender
· Crime e Castigo
· Leis
· Liberdade
· Razão e Paixão
· Dor
· Autoconhecimento
· Ensinar
· Amizade
· Falar
· Tempo
· Bem e Mal
· Prece
· Prazer
· Beleza
· Religião
· Morte
Sobre esses temas, escreverei apenas acerca do Trabalho.
Parece óbvio, mas somos o que fazemos. Não raro quando alguém nos pergunta “o que você é?”, respondemos por meio da nossa profissão. Uma profissão é um mundo, é um casamento, um ato de amor, dela vem o vestir, o comprar e o vender, o falar, etc. O trabalho não é um fim em si mesmo, contudo, ocupa uma parte significativa do nosso tempo. Um professor passa mais tempo na escola do que na própria casa, e passa mais tempo com alunos do que com a própria família.
Uma vez que somos o que fazemos, parece soar mais lógico agora que devemos fazê-lo bem feito, pois isso é sinal de amor, de cuidado de si e do outro. Que sentido há em um médio que não ama o que faz? Ou em um professor que não ama ensinar? Quando isso ocorre, para Edgar Morin, só restam “(...) problemas de carreira e de dinheiro para o professor; e de tédio, para os alunos” (MORIN, 2003, p. 102). Ao contrário, se a pessoa ama o que faz, procurará fazê-lo com o maior zelo possível.
Caso uma pessoa opte por ser professora, é pressuposto que ela aprenda a essência da profissão: saiba se comunicar, estude constantemente, tenha boa relação com a escrita. Saber se comunicar: o professor deve conversar até com as pedras[1]. Estudar constantemente: não é possível ter conhecimento, pois este não é uma posse, como dizia Erich Fromm em “Ter ou Ser?”, mas é preciso ser um com o saber. Ter boa relação com a escrita: a cultura formal é essencialmente uma cultura escrita, e quanto mais esta for conhecida e pratica, mais claro será o conhecimento. Que professor visa a obscuridade? Segundo Schopenhauer, “intricadas flores de retórica” (SCHOPENHAUER, 2001, p. 34-35) de nada servem.
Mustafa, ao meditar sobre todos os temas elencados, buscou ir à raiz do ser humano, e, quanto ao trabalho, buscou revelar a sua beleza e o seu amor. A quem diz que trabalhar é um fardo, que observe melhor se é possível viver sem o labor. A quem diz que trabalhar é sofrimento, que observe melhor se é possível alguém ser somente feliz, ou se a tristeza não faz parte da vida. Diz o profeta:
Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldição e a labuta uma infelicidade.
Mas eu vos digo que, quando trabalhais, cumpris uma parte do sonho mais profundo da terra, que vos foi designada quando o sonho nasceu,
E mantendo vosso trabalho, em verdade estais amando a vida,
E amar a vida através do trabalho é manter-se íntimo do maior segredo da vida. (GIBRAN, 2018, p. 38).
Há quem use da profissão como passatempo. Há quem a utilize para ganhar dinheiro. Há quem gosta do que faz e faz bem feito. Há quem não gosta do que faz e faz bem feito. Talvez a pessoa chegou a certo ofício por acaso, talvez não. Talvez a pessoa será professora a vida inteira, talvez no ano seguinte ela já não será mais professora. Sim, há um elemento de aleatoriedade na vida. não significa que o fatalismo seja o que há de melhor. Há inúmeras possibilidades quando o assunto é a vida. há caos em todos os lados. Porém, quando se visualiza a profissão sob o viés do amor, o que está em jogo é que a vida não é uma aposta, um perde ou ganha, um cara ou coroa; o que está em cena é que se deve fazer valer o papel de protagonista que a todos foi dado. Todos podem ser importantes no dia a dia. Todos são importantes no dia a dia. e trabalhar é uma forma básica de se importar com a vida em comum.
“O Profeta” é o tipo de livro, à semelhança de “O Pequeno Príncipe”, que revela muito em poucas páginas, o que mostra que não é no muito falar que alguém será ouvido. Além disso, é uma obra que nos leva a uma incrível viagem a nós mesmos. É isso mesmo: incrível, pois o ser humano é incrível como nos deu a entender “o eleito e o amado”.
Arthur Schopenhauer. Sobre a filosofia universitária. Trad. de Maria Lúcia de Mello Oliveira Cacciola e Márcio Suzuki. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Edgar Morin. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Trad. de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
Khalil Gibran. O Profeta. Trad. de Bettina Becker. Porto Alegre: L&PM, 2018.

