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Velhos Bandidos


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 30/03/2026
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Confesso que, originalmente, minha intenção era escrever sobre Nuremberg, um drama histórico que havia estreado fora do país ainda no final do ano passado e que só chegou agora aos cinemas brasileiros. Porém, o cinema nacional vive um momento ímpar, tanto pela qualidade quanto pela variedade, bem por isso, preferi escrever sobre a grande estreia nacional que está em cartaz, Velhos Bandidos. Uma mistura de ação com comédia, Velhos Bandidos tem ares de encontro, aquele tipo de obra que reúne amigos e agrega valor ao produto final. E, neste caso, não qualquer encontro, mas daqueles que a gente aceita o convite sem nem perguntar o cardápio.

A premissa, convenhamos, por mais que seja batida já carrega um charme irresistível. Um casal de aposentados decide, quase por acidente (ou por tédio, o que dá praticamente na mesma), se aventurar no mundo do crime. Não um crime qualquer, claro, mas um belo e organizado assalto a banco, desses que a gente adora ver no cinema. No papel, poderia ser só mais uma variação de uma fórmula bastante conhecida. Na prática, o filme parece pouco interessado em seguir qualquer manual.

O que move Velhos Bandidos não é o plano mirabolante, nem a tensão do assalto, tampouco a necessidade de surpreender o espectador a cada virada de roteiro. O que move o filme são as pessoas. E quando essas pessoas têm o rosto, a voz e o tempo de cena de Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, a conversa muda de nível. Sim, grandes estrelas da dramaturgia brasileira estão no elenco! Eles dão um verdadeiro show quando ocupam a tela. Não há esforço visível para convencer, eles simplesmente estão ali. E isso basta. A cumplicidade entre os personagens transborda com uma naturalidade que beira o improviso, ainda que claramente não seja. É o tipo de química que não se ensaia, se acumula ao longo de décadas de vida, de palco, de câmera e de país.

Ao redor deles, o filme constrói um jogo interessante de contrastes. Bruna Marquezine e Vladimir Brichta entram como essa energia mais impulsiva, quase caótica, que desorganiza e, ao mesmo tempo, dá ritmo à narrativa. Não são apenas coadjuvantes funcionais; são peças importantes nesse equilíbrio entre experiência e imprudência, entre cálculo e improviso. E então há Lázaro Ramos, que surge como esse investigador que poderia facilmente cair na caricatura, mas encontra um tom curioso e equilibrado, meio sério, meio deslocado, que combina perfeitamente com o espírito do filme. Ele não está exatamente correndo atrás dos bandidos; parece mais alguém tentando entender que tipo de história está acontecendo ali. E, honestamente, o público também.

A direção de Cláudio Torres entende muito bem esse jogo. Em vez de tentar transformar Velhos Bandidos em um espetáculo de reviravoltas ou em um exercício de estilo, ele faz algo mais inteligente: recua. Deixa espaço. Há um certo risco nisso, claro, o risco de parecer simples demais, leve demais, até despretensioso demais. Mas é justamente nessa escolha que o filme encontra sua identidade.

O ritmo acompanha essa decisão. A montagem é ágil quando precisa, mas nunca apressada. O filme sabe correr, mas também sabe parar e, principalmente, sabe ficar. Ficar em um olhar, em um silêncio, em uma troca de farpas que diz mais do que qualquer explicação de roteiro. Existe uma leveza na condução que não significa falta de cuidado, mas sim uma segurança rara, aquela de que nem tudo precisa ser sublinhado.

Sobre o roteiro, o filme não faz questão de esconder seus caminhos. Algumas soluções chegam antes do que deveriam, certos acontecimentos parecem seguir trilhas já bastante percorridas pelo gênero. Mas curiosamente isso não enfraquece a experiência. Pelo contrário, cria uma espécie de conforto. Como se esse fosse um filme para ver e relaxar. E talvez seja aí que Velhos Bandidos acerte com mais precisão. Ele entende que o assalto é quase um detalhe. O verdadeiro interesse está nas relações, nesse grupo improvável que, aos poucos, vai se configurando menos como uma quadrilha e mais como uma família. Disfuncional, claro. Cheia de conflitos, desconfianças e interesses cruzados. Mas ainda assim, família.

também um olhar curioso sobre o envelhecimento, tratado sem peso e sem paternalismo. Não se trata de fazer grandes declarações ou de transformar os personagens em símbolos. É algo mais simples, por isso mesmo, mais honesto. O humor segue essa mesma linha. Ele não está necessariamente nas grandes piadas, mas nas situações, nos contrastes, no absurdo aceito com naturalidade. É o tipo de comédia que não implora pelo riso, mas o conquista quase sem perceber. Quando você vê, já está envolvido e rindo.

Por que ver esse filme? Porque Velhos Bandidos não é um filme que pretende reinventar o cinema de assalto. Nem precisa. Seu maior mérito está em entender exatamente o que pode oferecer e entregar isso com uma generosidade rara. Além de ter um elenco de peso como protagonistas e que ainda conta com atores convidados que fazem participações mais que especiais. Bem por isso, este é um filme que não exige muito do espectador, mas oferece uma recompensa difícil de medir, que é justamente o prazer de assistir grandes atores se divertindo em cena. E isso, convenhamos, já é mais do que suficiente. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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