Ruy Barbosa. “Oração aos moços”

Escrevo esta resenha, em nove de abril de 2022, em uma condição semelhante a de Ruy Barbosa. Ontem fui paraninfo dos formandos do IFPR, e “Oração aos moços” foi o discurso de paraninfo do mestre baiano aos bacharéis em Direito da Universidade de São Paulo (USP), do ano de 1921. Essas coincidências nada têm de sorte.
Colação de grau das turmas de Licenciatura em Química, Engenharia Elétrica e Técnico em Eletromecânico. À frente, os diplomas simbólicos, ao fundo, os formandos e os familiares.
“Oração aos moços” é uma espécie de oração na qual Ruy Barbosa, na condição de pai espiritual, dará a sua benção aos futuros profissionais do Direito, bem como os aconselhará. A parte final da obra possui conselhos aos futuros juízes e advogados e, ao longo do livro, conselhos para todo aquele que queira se dedicar à justiça, ao bem, à pátria, à verdade. É emocionante ler a obra do célebre jurista e senti-lo tão vivo como há cem anos, e isso porque o tempo, para os clássicos, é relativo. Nas palavras de Barbosa:
Ora, tudo é viver, previvendo; é existir, preexistindo; é ver, prevendo. E, assim, está o coração, cada ano, cada dia, cada hora, sempre alimentando em contemplar o que não vê, por ter em dote dos céus a preexcelência de ver, ouvir e palpar o que os olhos não divisam, os ouvidos não escutam, e o tato não sente. (BARBOSA, 2009, p. 18).
O nível de profundidade do texto aqui em diálogo é absurdo. Típico de mestres da linguagem, em poucas palavras muito se é dito. Como uma oração, Ruy Barbosa pede a Deus que cuide de seus filhos espirituais, e que estes aprendam o essencial da prática do direito, e que jamais menosprezem o valor das adversidades e dos inimigos. Às vezes, maldizemos os nossos inimigos, mas, se pensarmos um pouco melhor, isso não teria lógica, pois eles, apesar de tudo, nos ajudam a sermos melhores.
Freud, em “O mal-estar na civilização”, criticou largamente o princípio cristão de “Ama teu inimigo”. Sim, na época, Freud, um judeu, havia perdido um filho na Primeira Guerra Mundial e, no contexto da Segunda, perderia mais parentes e o seu próprio modo de vida, indo para a Inglaterra. Inimigos como os nazistas não eram e não são brincadeira. Porém, ao Freud criticar de modo geral o referido princípio, tratando-o como um tolo idealismo, perdeu de vista que ele também é prático, muito prático e importante. O inimigo, como bem expressou Ruy Barbosa, nos faz querer ser mais, nos faz ser mais zelosos e perseverantes, e isso não é algo de se jogar fora. A crítica de Freud seria melhor se não fosse geral: ao pessimismo e desconfiança também cabem otimismo e esperança, ou, para relembrarmos Clarice, em “A paixão segundo G. H.”, elogios e críticas são problemáticos.
Desde que o tempo começou, lento, a me decantar o espírito do sedimento das paixões, com que o verdor dos anos e o amargo das lutas o enturbavam, entrando eu a considerar com filosofia nas leis da natureza, fui sentindo quanto esta necessita da contradição, como a lima dos sofrimentos a melhora, a que ponto o acerbo das provações a expurga, a tempera, a nobilita, a regenera. Então vim a perceber vivamente que imensa dívida cada criatura da nossa espécie deve aos seus inimigos e desfortunas. Por mais desagrestes que sejam os contratempos da sorte e as maldades dos homens, raro nos causam mal tamanho, que nos não façam ainda maior bem. Ai de nós, se esta purificação gradual, que nos deparam as vicissitudes cruéis da existência, não encontrasse a colaboração providencial da fortuna adversa e dos nossos desafetos. (BARBOSA, 2009, p. 29-30).
Na prática jurídica, exercida por décadas por Barbosa, certamente que ele enfrentou problemas e inimigos. Isso faz parte do dia a dia. Mas, é no embate entre bem e mal, que está quase sempre além de bem e mal, que a vida se movimenta e nos faz crescer.
Se algo é essencial à “Oração aos moços”, talvez seja a declaração de Ruy Barbosa de que ele se considerava um estudante. Apesar de toda experiência, de toda erudição, o que o definia era o estudo constante. Para isso, ele mesmo revela, acordava cedo, não dava suas energias à cama. Parte de sua produtividade é tributária de seu espírito madrugador. Quanto a isso, caro mestre, me perdoe, somos diferentes. Estou longe de ser alguém que acorda com o canto do galo. Aliás, não há galo perto de minha casa.
Enfim, confissões e brincadeiras à parte, o que está em jogo é o valor da oração e do trabalho. Para isso, o jurista conta a história do padre Francisco Suárez, um espanhol dos séculos XVI e XVII que, de rejeitado na Companhia de Jesus, tornou-se um expoente. A mesma história pode ser replicada com Barbosa, que, de sua admissão na Faculdade de Direito da USP foi considerado “indiferente”; anos depois, no centenário de seu nascimento, porém, foi alterada a sua ficha para “admirável”. Histórias como essas abundam na história e eu poderia citar só mais uma, a de Daniel Pennac, presente no livro “Diário de Escola”, que, de lerdo tornou-se um célebre professor e escritor. Romantismo? Idealismo? Não, mas, oração e trabalho.
No percurso intelectual, é importante ter em mente que a reticência é uma constante. Os alunos mais aplicados são aqueles que mais vivenciam a angústia do não saber. Eis o clichê: quanto mais sabem, quanto mais leem, menos sabem, mais sabem que há mais e mais livros para serem lidos. Quem tem o conhecimento como uma posse e que gosta de respostas abruptas e triunfais, pobre coitado, tenderá a ser um amante de mentiras. A vida não pode ser respondida em definitivo e nem às pressas. A quem se deparar com esses dilemas, dirá Ruy Barbosa: “O saber de aparência crê e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto mais real, mais desconfia, assim, do que vai apreendendo, como do que elabora.” (BARBOSA, 2009, p. 46).
Por fim, o jurista traz algo que pode parecer estranho em sua “Oração”: o Cristo irado. Porém, isso nada terá de estranho, conforme se verá. Na busca pelo bem e pela verdade, muitos empecilhos aparecem: muitas pessoas e instituições querem atrapalhar o fruir do que é correto. Nesse tipo de situação, é preciso ter uma justa ira, do contrário, a pessoa, seja ela o profissional do direito ou qualquer outra, será uma promotora do mal por omissão.
Assim que a bênção do paraninfo não traz fel. Não lhe encontrareis no fundo nem rancor, nem azedume, nem despeito. Os maus só lhe inspiram tristeza e piedade. Só o mal é o que o inflama em ódio. Porque o ódio ao mal é amor do bem, e a ira contra o mal, entusiasmo divino. Vede Jesus despejando os vendilhões do tempo, ou Jesus provando a esponja amarga no Gólgota. Não são o mesmo Cristo, esse ensanguentado Jesus do Calvário e aqueloutro, o Jesus iroso, o Jesus armado, o Jesus do látego inexorável? Não serão um só Jesus, o que morre pelos bons, e o que açoita os maus? (BARBOSA, 2009, p. 23-24).
Cristo não receou derrubar as tendas dos vendilhões do templo. Um professor não deve jamais admitir que um aluno seja chamado de “lerdo” ou de “burro”. Um advogado não deve jamais mentir para se sobressair, litigando de má-fé. Um juiz não deve jamais votar por conveniência, no embalo de outro colega. Utopias? Que assim seja, mas, não tê-las é algo que me ira, é conformar-se com o mal e com a verdade turvada.
O meu discurso de paraninfo, de ontem, seguiu a linha de raciocínio de “Oração aos moços” e também eu pedi benções aos meus alunos. Que eles possam conquistar boas coisas, que eles possam ser felizes, fazendo os outros felizes, e que se sintam responsáveis pelo futuro do mundo. É preciso acreditar que a esperança não morre. Eis como encerrei minha fala:
Na condição de paraninfo, isto é, de padrinho, de pai espiritual, quero dizer que somos, antes de tudo, amigos, pois cada um aqui cuida e tem o dever de cuidar da alma um do outro. Amigo é exatamente isso: um guardador da alma do outro, seja no sentido religioso, de ligação com Deus, seja no sentido intelectual. Os pais guardam os filhos dos perigos desta grande jornada chamada vida, preparando-os para o futuro; os amigos, que são escolhidos pelo que se convencionou chamar de coração, fazem o mesmo; e os professores, assumindo a responsabilidade pelo mundo, pelo futuro, preparam vocês para trabalhar em prol do amor, da justiça e da verdade. Eu sei que esses conceitos são difíceis e até mesmo relativos diante de uma sociedade líquida, mas, se um professor não puder falar abertamente de amor pedagógico, qual o sentido de seu dia a dia? Amem o que agora vocês estão recebendo, amem o que lhe aparecerá às mãos, sejam justos e busquem continuamente o conhecimento.
Momento final da formatura, onde os chapéus são jogados para o alto.
Ruy Barbosa. Oração aos moços. Bauru: EDIPRO, 2009.

