Ruth Rocha e a arte de renomear o mundo

Se existe um livro infantil capaz de provocar gargalhadas sinceras em adultos e, ao mesmo tempo, fazer crianças pensarem sobre o mundo, a linguagem e a lógica das coisas, esse livro é Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha.
Marcelo é aquele tipo de criança que toda família conhece: um menino curioso demais para aceitar o mundo “do jeito que está”. Ele não se conforma com o fato de o marmelo se chamar marmelo, o martelo ser martelo e o cachorro não se chamar latildo. Afinal, se late, por que não latildo? Se o pão é feito de pão, por que o leite não vem da leiteira chamada “leiteiro”? Faz sentido. Ou pelo menos deveria fazer.
Marcelo não aceita a língua portuguesa assim, de olhos fechados. Para ele, “cadeira” não quer dizer nada. Sentador faz muito mais sentido. Travesseiro? Não. Aquilo só pode ser cabeceiro. A lógica infantil entra em cena com tamanha convicção que o leitor se pega concordando. Afinal, por que não?
E é aí que mora a genialidade do livro. Com humor afiado e inteligência rara, Ruth Rocha transforma a lógica infantil em um espelho desconfortavelmente divertido para os adultos. Marcelo questiona tudo aquilo que aceitamos sem pensar.
O texto é leve, rápido e deliciosamente engraçado. As situações se acumulam como pequenas cenas de uma comédia bem ensaiada, em que o riso vem acompanhado de um “pensando bem…”. Crianças riem das trapalhadas de Marcelo; adultos riem de si mesmos ao perceberem o quanto já deixaram de se perguntar “por quê”.
Mas não se engane: Marcelo, Marmelo, Martelo não é apenas um livro divertido. É também uma obra sobre criatividade, inconformismo e liberdade de pensamento. Em tempos de respostas prontas e manuais de comportamento, Marcelo surge como um pequeno rebelde da linguagem, ensinando que questionar é saudável e, muitas vezes, necessário.
Publicado há décadas, o livro segue atualíssimo. Talvez porque crianças continuem curiosas. Talvez porque adultos continuem acomodados. Ou talvez porque boas histórias, quando são boas de verdade, não envelhecem.
Se você quer formar leitores, provocar risadas ou simplesmente lembrar que o mundo pode ser visto de outro jeito, este livro é leitura obrigatória. Para crianças, pais, professores ou qualquer adulto que já parou de perguntar por que o martelo não se chama pregador.
Afinal, convenhamos: poderia muito bem se chamar.

