PROVOCAR, GRAVAR, VIRALIZAR: CYBERBAITING E VIOLÊNCIA CONTRA PROFESSORES

Por: Roberto Nunes Bittencourt
Imagine entrar em uma sala de aula para trabalhar e descobrir que, naquele dia, você também é o conteúdo. Alguém liga discretamente a câmera do celular. Outro começa a provocar. Surgem perguntas feitas não para obter respostas, mas para constranger. Risadas, interrupções, insinuações e desafios se acumulam. Tudo tem uma finalidade: produzir uma cena. Enquanto o professor acredita estar enfrentando apenas mais uma situação difícil do cotidiano escolar, alguém está preparando o próximo vídeo para circular nas redes sociais. Isso tem nome: cyberbaiting.
A palavra ainda é pouco conhecida, mas a violência que ela designa precisa ser discutida. No cyberbaiting, o professor é deliberadamente provocado, constrangido ou importunado enquanto sua reação é registrada, muitas vezes sem que saiba. A agressão não termina na sala de aula. A gravação pode ser editada, acompanhada de legendas ofensivas e lançada nas redes para gerar risadas, comentários, humilhação e compartilhamentos.
Há algo particularmente perverso nesse mecanismo: a violência é planejada para produzir audiência. Não basta constranger o professor diante de uma turma. É preciso transformar o constrangimento em espetáculo, fazê-lo circular, conquistar visualizações. A vítima deixa de enfrentar apenas aqueles que participaram da provocação e passa a ser exposta a uma multidão que desconhece o contexto, mas participa da violência por meio do deboche, dos comentários e da reprodução do conteúdo.
O celular, nesse caso, não é a causa do problema. É o instrumento que permite ampliar uma agressão e prolongá-la para além dos muros da escola. O que antes poderia terminar com o sinal de saída agora pode acompanhar o professor durante dias, meses ou anos. Uma gravação permanece disponível, reaparece em outras plataformas, recebe novas legendas e alcança pessoas que jamais conheceram aquele professor.
Por isso, reduzir o cyberbaiting a uma “brincadeira de aluno” significa ignorar sua gravidade. Estamos falando de violência, exposição, humilhação e perseguição mediadas pelas tecnologias digitais. Estamos falando também das consequências emocionais e profissionais para quem entra diariamente em uma sala de aula sem saber se está sendo transformado em alvo.
A pergunta que precisamos fazer, portanto, não é apenas o que os celulares estão fazendo dentro das escolas. É muito mais incômoda: em que momento passamos a considerar divertido transformar a humilhação de um professor em conteúdo? E talvez exista uma segunda pergunta ainda mais urgente: quando todos assistem, compartilham e riem, onde termina a provocação de alguns e começa a violência de muitos?

