O Tempo

“O que você mais deseja, que não pode ter, mas um dia teve e perdeu? Essa questão li em uma análise filosófica sobre o filme Odisseia e do próprio poema de Homero.
A resposta a essa pergunta exige um olhar para o nosso passado e somar as perdas vividas até chegarmos ao nosso dia a dia. Diferentemente de se desejar algo que nunca se teve que traz em si a expectativa e a ansiedade, mas também um certo grau de fantasia, ilusão e idealização, querer ter algo que já se teve e se perdeu é uma forma de alimentar uma dor que tem nome certo: a falta.
Querer ser jovem novamente, reviver pessoas, lugares, momentos, resgatar objetos, odores, paisagens é reconhecer que hoje tudo isso faz falta. E se algo nos faz falta é porque quando vivemos ou tivemos era algo que nos fazia bem, ainda que não tenhamos percebido naquele momento.
E por que só agora valorizamos? Simplesmente porque só desejamos o que não temos, o que está além do alcance de nossas mãos. Dificilmente desejamos aquilo que já temos. Os filósofos gregos já afirmavam isso na Antiguidade e Schopenhauser, no Século XIX, sintetizou o pensamento ao dizer que vivemos entre a ansiedade de desejar e o tédio de possuir.
Queremos algo que nos falta. E por nos faltar, sentimos dor, ansiedade e sofrimento. Isso nos faz lutar para ter o que está faltando. E ao não fazer mais falta, perdemos o interesse e buscamos encontrar outra falta para desejar. E o ciclo se repete eternamente, uma vez que continuamos e somos incentivados a correr atrás dos nossos sonhos, independentemente do estágio em que estejamos na vida.
Um carro novo, uma casa nova, outra viagem, um novo amor, mais riqueza. Algo que não tenhamos, que acreditamos que nos trará felicidade, que será perfeito. E essa certeza se desvanece no exato momento em que adquirimos o carro, a casa, fazemos uma nova viagem, ganhamos mais dinheiro, iniciamos um relacionamento.
Ai descobrimos, uns mais cedo, outros mais tarde, que só não nos decepcionamos com aquilo que não temos, porque o nosso desejo nos faz crer que aquilo é perfeito. E nosso desejo se torna mais cruel quando sentimos falta de algo ou alguém que já tivemos e perdemos. Porque, ao contrário da idealização de algo que não sabemos como é realmente, sentimos falta de algo que vivemos, que lembramos, que sentimos saudade.
A saudade e a lembrança podem ser traiçoeiras, por retratarem algo muito melhor do que foi, Também podem ser a expressão mais profunda de que ter vivido algo bom e que valeu a pena. Saudade não é somente dor. É prova de que houve algo bom.
Talvez seja por isso que vemos pessoas mais desesperadas quando o companheiro ou companheira vão embora, ainda que a relação tenha chegado ao limite, quando perdem bens, quando querem visitar lugares por onde já passaram e não conseguem ir. Porque a falta está temperada com a saudade.
E o que nos atormenta mais profundamente é que aquilo que já tivemos e não temos mais não se recupera, ainda que voltemos a ter a mesma pessoa, façamos a mesma viagem, tenhamos o mesmo carro e moremos na mesma casa. Simplesmente porque mudamos, temos outros objetivos, outra visão da vida, outro ânimo. Poderemos ter novas lembranças que poderão fazer falta no futuro mas aquilo que sentimos falta hoje não será recuperado.
Provavelmente a resposta para a pergunta seria o tempo. O tempo em que moramos e não o lugar; o tempo em que viajamos e não o destino atual, o tempo em que vivemos com pessoas e não essas pessoas como são atualmente.
O tempo cura tudo, menos o desejo de recuperá-lo, porque não o temos mais e a lembrança e saudade que ele deixa não se pode apagar.

